29
jan

As férias são o momento ideal para dar conta daquela pilha de livros que cresceu vertiginosamente sobre a sua mesa de cabeceira ao longo do ano. Mas, se for para escolher apenas um deles, unzinho que seja, vá de Raul Taburin.

Lançada há poucos meses no Brasil, esta é mais uma inesquecível obra-prima do cartunista francês Jean-Jacques Sempé, conhecido pela série Pequeno Nicolau e por suas ilustrações publicadas na revista New Yorker. O livro narra – em palavras, mas sobretudo em desenhos de traços finíssimos que são a marca registrada do autor – a história de Raul Taburin, o melhor mecânico de bicicletas da cidade de Saint-Cerón.

Mas o fato de ser um grande conhecedor de manetes, pedais, selins e pneus não lhe garantiu o mesmo sucesso sobre duas rodas: Taburin nunca aprendeu a andar de bicicleta, segredo que guardou para si a vida toda. Seu problema era uma questão de equilíbrio. Ao mesmo tempo em que não era capaz de se equilibrar sem o apoio de rodinhas, sua verdadeira identidade estava em desequilíbrio com a sua reputação. E, como costumava dizer Hervé Figure, o fotógrafo da região, “não se pode fazer nada de bom sem equilíbrio”. A começar por uma boa imagem.

Hervé e Taburin se tornaram companheiros inseparáveis, até o dia em que o fotógrafo tem a grande idéia de clicar o amigo pedalando uma magrela encosta abaixo. O episódio, não menos cômico do que trágico, traz à tona segredos antigos e um grande alívio para os dois amigos - algo próximo da liberdade de pedalar sem rodinhas e sem as mãos.

Neste livro, que vai encantar tanto crianças quanto adultos, Sempé fala de solidão, fraquezas e frustrações, mas também do poder de uma grande amizade. Que nestas férias você possa aproveitar bons livros e bons amigos. Tudo em equilíbrio, como se deve ser.

*Resenha publicada originalmente na coluna Orelha do Livro da revista ler&Cia#36.

29
jan

Há uma grande diferença entre um forte militar e o balcão da portaria de um edifício residencial. Não, porém, quando estes lugares são defendidos por homens como o tenente Giovanni Drogo e o porteiro Desidério Santos dos Santos. Protagonista do romance de estreia do curitibano Cezar Tridapalli, Pequena Biografia de Desejos (Editora 7 Letras, R$ 39), Desidério é a versão contemporânea do personagem de O Deserto dos Tártaros: sua vida pode ser descrita como uma longa e solitária espera, um infinito desperdício.

Não é à toa que cito aqui o clássico de Dino Buzzatti. Na ficção de Tridapalli, esta é a obra inaugural da biblioteca de Desidério, formada por exemplares chamuscados que sobreviveram ao incêndio do apartamento 602. O tesouro não apenas lhe traz à lembrança a velha vertigem da juventude, diante das prateleiras da Biblioteca Pública do Paraná, como também inaugura seu mais novo desejo: tornar-se um escritor.

Mas, ao contrário do texto de Tridapalli, o romance secreto que Desidério escreve durante as madrugadas na guarita não se desenvolve, à semelhança de sua própria vida. Suas relações afetivas conseguem ser menos estimulantes do que o trabalho de vigia – da esposa Macária, quase invisível, ao tio militar capaz de invisibilizar qualquer interlocutor; da mãe que desaparece no dia de seu aniversário ao pai que começa a desaparecer lentamente, primeiro mudo, depois cego, por fim imóvel.

Enquanto isso, a literatura vai se convertendo na única chance de viver algo autêntico, apaixonante. Quando conhece Adele, a leitora voraz do 301, o romance de Desidério ganha novo ritmo, porque movido pelo desejo – do latim, desiderium. E é deste sentimento que nasce esta pequena biografia, originando também este grande livro.

*Resenha publicada originalmente na coluna Orelha do Livro da revista ler&Cia#42.

04
ago

É longa a lista de obras literárias que já se dedicaram à relação entre pais e filhos. Do sincero e comovente relato de Cristovão Tezza em O Filho Eterno ao desabafo espinhoso de Franz Kafka a seu pai, na famosa carta nunca entregue, o tema parece mesmo ser infindável.

Muitas vezes, a lembrança pode ser um caminho viável para um filho chegar ao seu genitor, como mostraram A invenção da solidão, de Paul Auster, e Quase memória, de Carlos Heitor Cony – e, já se sabe, onde há memória nunca falta imaginação. Caminho semelhante – embora bem mais sinuoso – foi trilhado por Beatriz Bracher em Antonio (Editora 34), um dos romances mais marcantes que li recentemente.

Publicado em 2007, o livro é armado de forma bem particular: Benjamin, o protagonista, descobre sem querer um segredo importante da sua família e, agora, quer saber como tudo aconteceu. Como os principais envolvidos já morreram, só lhe resta ouvir a história completa – ou versões dela – de três pessoas diferentes: sua avó, o melhor amigo de seu avô e um grande companheiro de seu pai. Assim, o leitor vai conhecendo a trama do livro ao mesmo tempo em que seu protagonista, numa história polifônica e estruturalmente complexa, porque dar conta de um passado cheio de lacunas, imprecisões e remorsos não pode ser tarefa simples.

A jornada de Benjamin em busca de Teodoro, seu pai, ganha novo significado quando sabemos que também ele experimentará a paternidade em breve, já que Antonio, seu filho, está prestes a nascer. No livro de Beatriz Bracher, é curioso que o personagem-título da obra ainda não exista e seu protagonista nada diga. Mas, assim como nas relações entre pais e filhos, às vezes o silêncio – e o ato de ouvir – pode ser a mais verdadeira expressão de afeto.

(Artigo publicado originalmente na edição de Dia dos Pais da revista ler&Cia, publicação bimestral da Livrarias Curitiba.)

29
set

A nova edição da revista ler&Cia já está nas lojas, e traz uma entrevista com a escritora carioca Ana Maria Machado, um dos nomes mais conhecidos da literatura brasileira infantil. Também inspirada no universo das crianças, a coluna do Orelha do Livro comenta o clássico Os Meninos da Rua Paulo, do húngaro Ferenc Molnár, que já marcou presença em programas anteriores. Não deixa de ser uma boa sugestão para esse Dia das Crianças que vem chegando. A revista é distribuída gratuitamente em todas as lojas da Livrarias Curitiba, pegue a sua e boa leitura!

06
ago

Acabei não comentando aqui, mas o Orelha do Livro estreou em julho sua coluna na revista ler&Cia, publicação bimestral da Livrarias Curitiba. A edição de número 27 traz minhas impressões sobre o romance mais recente de Chico Buarque, Leite Derramado, além de uma ótima entrevista com o badalado Cristovão Tezza. Você tem até o final de agosto pra saborear a 27a edição da revista. E em setembro a coluna do Orelha do Livro irá comentar uma obra que já atravessou um século, encantando crianças de todas as idades.

Não deixe de pegar a sua revista em qualquer loja da Livrarias Curitiba, é grátis!
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