22
ago

Domingo é o dia perfeito para atualizar as leituras. Hoje, lendo a edição de agosto do jornal Rascunho, me deparei com um texto interessante do José Castello publicado anteriormente em seu blog, A Literatura na Poltrona, sobre o medo como matéria-prima e força motriz da literatura. O escritor e jornalista evoca, então, duas figuras que muito tinham a dizer sobre o tema: Clarice Lispector e Julio Cortázar. A primeira, certa vez, depois de ler os originais de um conto do jovem Castello, tachou-o de medroso (”com medo ninguém escreve”, teria dito). Cortázar, por outro lado, encontrava justamente no sobrenatural, naquilo que mais o atormentava, a inspiração e o impulso para sua obra. (Diz-se, inclusive, que ele chegou a exorcizar alguns demônios interiores depois de escrever o conto “Carta a uma senhorita em Paris”, no qual o protagonista metaforicamente vomitava coelhinhos brancos.) Em minha leitura do artigo de Castello, sublinhei os seguintes trechos:

A literatura não é só filha do talento, da disciplina e da inspiração. Nasce, também, de sentimentos detestáveis que, de outra forma, talvez nos atormentassem até o fim dos nossos dias. Nasce do que temos de melhor, mas também do que temos de pior, e é preciso dizer isso com todas as letras“.

“A leitura de ficções muitas vezes gera medos que só se solucionam qando escrevemos novas ficções”.

O vórtice do pavor sempre foi a manifestação do sobrenatural, daquilo que não se pode tocar nem ouvir nem ver com os sentidos habituais” (citando Cortázar). “Em outras palavras: a literatura precisa do medo porque atua como um substituto do tato, da audição e da visão. O que não se pode nem tocar, nem ouvir, nem ver, ainda assim, se pode ler (e aqui a literatura se afirma como uma máquina de imaginar): só com esse substituto é possível inventar, sonhar, imaginar“.

Tanto na obra da brasileira quanto na do argentino o medo está lá, na forma de enfrentamento, transcendência, memória da infância, companheiro inseparável. Como disse o Castello, “não importa se você encara um abismo, ou se lhe dá as costas: o risco de cair é o mesmo. Nem olhar, nem fechar os olhos destroem o abismo.”

16
jun

Nessa quinta-feira (17), o projeto Paiol Literário traz à Curitiba o escritor carioca Alberto Mussa. Autor de Elegbara, O enigma de Qaf, O movimento pendular e Meu destino é ser onça, entre outros livros, Mussa já recebeu prêmios consagrados de literatura, como o Casa das Américas, APCA e Machado de Assis. O bate-papo, mediado pelo escritor e jornalista Luís Henrique Pellanda, começa com as perguntas “Qual a importância da literatura na vida cotidiana das pessoas? E por que ler?”. O evento é uma iniciativa do jornal Rascunho, e acontece às 20h no Teatro Paiol, com entrada franca. Quem estiver fora de Curitiba pode conferir a reprodução da conversa na edição seguinte do Rascunho ou no site do jornal.

Foto: Leonardo Aversa

21
abr

No dia 08 de abril de 2000, uma década atrás, nascia em Curitiba o jornal Rascunho – inicialmente um suplemento do Jornal do Estado, hoje uma das publicações sobre literatura de maior prestígio e relevância no país. Leia na íntegra a entrevista que fiz por e-mail com Rogério Pereira, editor e idealizador desta iniciativa merecedora de aplausos, que sobrevive com dificuldades, mas consciente de sua importância para o debate literário nacional.

Como e por que surgiu o Rascunho, em abril de 2000?

O Rascunho nasceu para ser um suplemento literário de Curitiba, sem grandes pretensões nacionais. Na época, os jornais da cidade não tinham (e até hoje não têm) um suplemento dedicado exclusivamente à literatura. Portanto, o jornal nasceu desta carência e da vontade de um grupo de jovens de fazer algo que consideravam interessante no jornalismo. Desde o início — e isso se explica, talvez, pelo ímpeto juvenil que nos rondava; todos tínhamos pouco mais de 20 anos e havíamos deixado a universidade recentemente —, o Rascunho sustentou uma proposta de crítica livre, sem vínculos com grupos, panelinhas, etc. Não queríamos fazer um suplemento parecido com o que ofereciam os grandes jornais. Partimos para uma “missão” um tanto iconoclasta. Hoje, mesmo com o amadurecimento do jornal, o Rascunho ainda é visto e reconhecido (o que é muito bom) como um veículo combativo, desapegado de tendências. Tem um DNA turrão. Enfim, é um amplo palco para discussões de maneira salutar e honesta. Também tínhamos uma preocupação em conceder espaço aos autores que estavam fora da grande mídia. Isso é uma marca do jornal que segue forte até hoje.

Como era o jornal na época, e o que mudou de lá pra cá?

Muita coisa mudou nestes 10 anos, principalmente em qualidade editorial. No início, tínhamos oito páginas, com cerca de 20 colaboradores. O Rascunho era um suplemento do Jornal do Estado. Agora, chegamos à edição 120 com 40 páginas e cerca de 60 colaboradores de todas as partes do Brasil. Além disso, o Rascunho é, desde 2004, um jornal independente. Neste longo período, conquistamos um espaço entre os veículos culturais brasileiros. A tiragem é de 5 mil exemplares e chega a todos os estados brasileiros por meio de assinatura. Recentemente, o Rascunho foi escolhido uma das publicações em um edital para a venda de 7 mil assinaturas para o Ministério da Cultura. Estamos aguardando apenas o trâmite interno do MinC. Com isso, a tiragem passará para 12 mil exemplares. Para um jornal que nasceu para ter vida muita curta, até que estamos indo bem longe.

O cenário da literatura brasileira também sofreu transformações nestes dez anos?

Em 10 anos, tudo sofre algum tipo de transformação. Na literatura brasileira, alguns fenômenos interessantes são evidentes. 1) A chegada de grandes grupos editoriais estrangeiros, como Alfaguara e Planeta, mostra que o mercado brasileiro ainda tem muito espaço para crescer. 2) Os novos autores ganharam oportunidade nas grandes casas editoriais. Hoje, é muito comum uma grande editora apostar em livros de estréia. Portanto, facilitou-se muito o surgimento de novas vozes. 3) Há uma quantidade imensa de festivais, bienais, encontros, feiras, etc. em torno da literatura em todo o país. Há, com certeza, um ambiente mais favorável à literatura no Brasil. No entanto, não afirmo que há um ambiente ideal, mas é muito melhor do que era há 10 anos, por exemplo. Uma prova disso é que o Rascunho consegue sobreviver, mesmo o Brasil não sendo ainda um país muito encantado pela literatura.

Quantos assinantes o jornal possui hoje?

Entre cortesias e assinaturas, enviamos cerca de 1.500 exemplares para todo o País. Para o restante (3.500), temos uma distribuição dirigida nas 17 lojas da Livrarias Curitiba (SP, PR, RS e SC), Biblioteca Pública do Paraná, Livraria do Chain, Ghignone, Fundação Cultural de Curitiba, Faróis do Saber, entre outros pontos na capital paranaense.

Além do Paiol Literário, que outros projetos o Rascunho desenvolveu ou desenvolve atualmente?

Para sobreviver, o Rascunho tem de inventar muitas coisas ligadas à literatura. A que deu mais certo até agora é o Paiol Literário, que em 19 de maio entra na quinta temporada. Já trouxemos 38 autores a Curitiba. Os encontros serão editados em livro em breve. Além disso, já mantivemos uma oficina de criação literária. Também, abri em 2008 o Quintana Café & Restaurante, que é um projeto que une literatura e gastronomia. Além disso, o Rascunho possibilita que eu realize curadorias para feiras e bienais. Para 2010, estão previstos dois volumes com as melhores entrevistas nestes 10 anos. Serão 40 entrevistas. A editora é a Arquipélago, de Porto Alegre. Também teremos um novo site e, possivelmente, lançaremos o Prêmio Rascunho de Literatura, em parceria com uma grande editora.

O interesse pela literatura brasileira vem crescendo no país, impulsionado pela internet, ou este público ainda é restrito?

Como respondi anteriormente, há uma ambiente mais favorável à literatura hoje em dia. A internet, obviamente, tem uma participação de extrema importância. No entanto, não acompanho muito de perto os movimentos literários pelo mundo on-line.

Capa da primeira edição de Rascunho.Muitos veículos impressos encontram dificuldades para se manter em atividade hoje. O Rascunho é voltado para leitores de literatura em um país de poucos leitores. Como sobreviver neste cenário?

O Rascunho sobrevive com muitas dificuldades. No entanto, graças ao empenho dos colaboradores, que não recebem pelo trabalho, o jornal conseguiu um padrão editorial muito consistente. Com o tempo, consolidou-se como um veículo importante no cenário literário. Isso contribuiu para a realização de outros projetos que ajudam a garantir a sobrevivência. Além disso, com o tempo conquistamos assinantes e a confiança de bons anunciantes. Mas todo mês é uma luta para fechar as contas. Para complicar um pouco mais, sempre mantive distância das leis de incentivo.

O jornal já foi palco de grandes polêmicas entre leitores, articulistas e escritores. Você lembra de alguma em especial, que rendeu boas discussões?

Desde o seu nascimento, o Rascunho sempre foi palco para amplas discussões. Muitas delas bem acaloradas. Muitas foram marcantes. No entanto, a mais importante foi a envolvendo o poeta Sebastião Uchoa Leite (edição 35, março de 2003), cujo livro A regra secreta recebeu crítica extremamente negativa. O texto gerou manifestações muito raivosas e também apoio de leitores e do meio literário. Foi uma batalha bem interessante. A partir de então, o Rascunho ganhou mais evidência em todo o país. Fizemos algo que considerei fundamental: abrimos amplo espaço para aqueles que não concordavam com o nosso texto. Na edição seguinte, publicamos textos e cartas contra o próprio Rascunho. Foi um exercício bastante saudável.

Se pudesse escolher sua edição preferida nesta década de Rascunho, qual seria e por quê?

Tentado a cair no lugar-comum, sempre escolho a edição mais recente como a minha preferida. É um sinal concreto de que estou vivo. De que algo tem dado certo. É a prova de que é possível, mesmo com todas as dificuldades, fazer algo em que se acredita. Por motivos óbvios, também tenho carinho especial pela edição zero, de 8 de abril de 2000.

O que você está lendo no momento e gostaria de indicar a outros leitores?

Leio muitos livros ao mesmo tempo. Alguns por obrigação profissional. Por prazer, estou às voltas com Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas (autor fundamental para quem aprecia a boa literatura), uma releitura de Lavoura Arcaica, do Raduan Nassar, e os versos da norte-americana Marianne Moore.

(Conheça a versão on-line de Rascunho, e assine a impressa.)

11
ago

O convidado do Paiol Literário de hoje é o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony, membro da Academia Brasileira de Letras, autor de mais de 30 livros e vencedor de quatro prêmios Jabuti. A mediação fica por conta de José Castello, que costuma dar início ao bate-papo perguntando: “Qual a importância da literatura na vida cotidiana das pessoas? E por que ler?”. O projeto Paiol Literário é realizado desde 2006, graças a parceria entre o jornal Rascunho, Sesi Paraná, Prefeitura e Fundação Cultural de Curitiba. Entre os nomes que já participaram de outras edições estão Nélida Piñon, Moacyr Scliar, Livia Garcia-Roza e João Paulo Cuenca.

O bate-papo de hoje com Heitor Cony começa às 20h no Teatro Paiol (Praça Guido Viaro, s/n.º, Prado Velho, Curitiba), e a entrada é franca.