jun
Sabe aquele livro que você adora mas que, justamente por indicar e emprestar para todo mundo, nunca está em sua biblioteca quando você mais precisa dele? Pois, para mim, este livro é O Bigode (La Moustache, 1986), do francês Emmanuel Carrère. Com a notícia da sua vinda ao Brasil para a Festa Literária de Paraty, a editora Objetiva aproveitou para relançar a obra em português, pelo selo Alfaguara. Com uma novidade: além de O Bigode, a edição traz na sequência outra novelinha aterrorizante de Carrère, A Colônia de Férias (La Classe de neige, 1995), que eu li anos atrás como Férias na Neve, numa edição antiga da editora Rocco. A tradução de ambas é assinada por André Telles. A capa? Bom, a capa da Rocco era bem mais instigante…
Sobre a primeira narrativa, que John Updike classificou como “requintada, implacável e surpreendente”, fiz alguns comentários em um dos primeiros programas do Orelha do Livro, veiculado na rádio Lumen FM em dezembro de 2008. (Ouça aqui.)
Além da competência admirável de Carrère quanto à forma do texto, o tema da identidade é explorado sob um ponto de vista muito interessante, dentro da esfera conjugal e familiar. Como é possível ser íntimo de alguém e, ao mesmo tempo, um completo estranho? Como a distância se instala entre aqueles que um dia já foram tão próximos? E por que a imagem que o outro tem de nós pode ser tão poderosa, capaz de desestabilizar até mesmo quem somos?
Sobre A Colônia de Férias, digo apenas que é uma novela para ler num tiro, numa tarde, sem respirar. Thrillers com crianças são duplamente assustadores (e interessantes!), talvez por isso eu goste tanto dos filmes da Lucrecia Martel. E por falar em filme, ambas novelas de Emmanuel Carrère foram adaptadas para o cinema (uma delas, roteirizada pelo próprio). Os filmes nunca foram lançados comercialmente no Brasil, mas só pelo trailer de La Moustache e La Classe de Neige você já pode entender do que eu estou falando.
Nessa entrevista à Folha Ilustrada, publicada em abril, o autor comenta seus trabalhos mais recentes e a ideia de “romances verídicos”, presente em alguns de seus livros.





