22
fev

Outro dia ouvi alguém dizendo que certa criança, depois de ficar horas de castigo, terminou sozinha a leitura de três livros. Que beleza, ler é ótimo. Só acho perigosa essa associação entre leitura e castigo. Afinal, se todo pai acha lindo seu filho ler um livro, a chance de isso acontecer mais vezes é infinitamente maior quando a família trata o hábito da leitura com afeto e liberdade, não com punição.

Aos pais que têm o desejo de criar este clima em casa, eu indico a coleção Pequenas Grandes Histórias, que a editora Positivo lançou recentemente. Trata-se de uma caixinha com seis clássicos da literatura infanto-juvenil ilustrados, recontados pelo escritor italiano Roberto Piumini e extremamente fieis aos contos originais dos irmãos Grimm, de Hans Christian Andersen e do grego Esopo. Aliás, este é um dos pontos altos da coleção. Ao longo dos séculos, estas histórias foram reescritas inúmeras vezes, em geral em nome do “politicamente correto”, eliminando qualquer vestígio de maldade. Agora, o pequeno leitor vai conhecer as versões originais destes contos, ou pelo menos o mais perto disso. “As pessoas precisam entender que os livros de literatura não servem para catequizar as crianças, para passar lições de moral. A literatura é, antes de tudo, uma arte: a arte da palavra. Depois, não podem esquecer que o mal não é uma invenção da literatura. Está presente nos textos literários, assim como na Bíblia, nas páginas dos jornais e das revistas, na vida”, explica Marcelo Del’Anhol, editor de literatura da Positivo. E ele está certíssimo.

Indicado para crianças a partir de 3 anos ou, no caso de lerem sozinhas, de 6 anos, a coleção é composta das seguintes histórias: Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, A cigarra e a formiga, O gigante egoísta (este, um conto de Oscar Wilde), João e Maria e A princesa e a ervilha. Você vai notar que algumas delas aparecem diferentes das que conhecemos. Por exemplo, ao final de Chapeuzinho Vermelho, o caçador não atira no lobo, e sim costura pedras pesadas em sua barriga, fazendo com que ele caia no rio e se afogue. Sempre achei que este fosse o final de O lobo e os sete cabritinhos, também dos irmãos Grimm, por isso fiquei surpresa.

Pequenas Grandes Histórias traz ainda um Guia de leitura para a família, escrito em colaboração com o escritor Paulo Venturelli, que pode ser uma “mão na roda” para os pais. Além de indicar atividades para envolver as crianças após a leitura, o guia traz um belo texto de abertura. Eis alguns trechos:

Os livros oferecem uma lição de democracia, porque neles estão representados os mais diversos modos de dizer e de pensar. Desde cedo, tendo contato com pensamentos diferentes dos seus, a criança aprende a arte da tolerância e do respeito às diversidades nos mais variados campos do viver, o que pode auxiliar, quem sabe, na construção de um mundo menos violento que o de hoje, em que a vida foi banalizada”.

A contação de histórias pode ser um fantástico e sedutor recurso tanto para aproximar as crianças dos adultos quanto para atraí-las para o mundo da leitura.

Quem passa pelos grandes escritores da humanidade dispensa os livros de autoajuda. A literatura trata dos problemas da vida e do mundo e nos ajuda, sobretudo, a amadurecer. Ainda que não traga nenhuma resposta pronta, nenhuma fórmula de felicidade instantânea, a literatura que merece este rótulo, ao lidar com as questões humanas, faz com que nos coloquemos diante de nós mesmos e aprendamos a lidar com nossos problemas e também com os dos outros.”

12
dez

Dois adolescentes. Um encontro secreto. Bum! Um ruído ensurdecedor e o prédio em construção vem abaixo. Sob os escombros, no escuro, absolutamente sozinhos e protegidos apenas por uma mesa de grápia, Rui e Júlia se recuperam do susto. E, enquanto esperam o resgate, têm tempo de sobra para se conhecerem.

Assim começa “O Estalo”, romance do escritor gaúcho Luís Dill escrito apenas com diálogos. Sem um narrador para descrever cenários ou analisar o que pensam e sentem os protagonistas, o leitor conta somente com esta longa conversa para desvendar, aos pouquinhos, quem são Rui e Júlia. Qual a relação entre eles? Como se conheceram? Afinal, o que estavam fazendo ali? A cada página, vamos descobrindo as diferenças e afinidades entre eles, sua visão de mundo, com o que sonham e o que desejam.

O texto de Luís Dill tem uma capacidade brilhante de se aproximar da linguagem e do contexto jovem, a quem se destina este livro - das referências culturais, que vão de tatuagens e piercings ao hit de Black eyed Peas, ao jeito inseguro de se expressar, típico da fase adolescente. Dill merece vencer hoje o Prêmio Açorianos de Literatura na categoria Juvenil, na qual concorre este ano. Se isso acontecer, será a terceira vez: em 2008, foi vencedor na categoria Conto com “Tocata e Fuga” e, no ano seguinte, com o juvenil “De carona, com Nitro“. O anúncio dos vencedores da maior premiação literária do Rio Grande do Sul acontece hoje às 20h no Teatro Renascença, em Porto Alegre.

“O Estalo”, publicado em 2010 pela editora Positivo, traz ainda uma série de desenhos muito originais de Rogério Coelho, que tinha como desafio ilustrar uma história inteiramente ambientada no escuro, protagonizada por personagens que não se veem. Usando apenas o preto, o branco e o azul, Rogério criou imagens enigmáticas e de extremo bom gosto, como todo o projeto gráfico do livro.