05
dez

No dia em que a “musa” das letras brasileiras, Clarice Lispector, completaria 91 anos, surge no país uma iniciativa para divulgar e homenagear a escritora: o projeto Hora de Clarice, liderado pelo Instituto Moreira Salles em parceria com a Editora Rocco. No dia 10 de dezembro, várias capitais brasileiras promoverão palestras, leituras, debates e até um sarau na internet. A ideia é que a celebração se transforme num evento anual - a exemplo do Dia D, que em outubro homenageou o poeta Carlos Drummond de Andrade.

A Editora Rocco, que edita a obra de Clarice no Brasil, está agitando o Twitter e Facebook com notícias, videos e fotografias do acervo da escritora, como esta que ilustra o post. Acesse e participe do sarau virtual promovido pela editora, que irá sortear exemplares de Clarice na Cabeceira e Crônicas para Jovens aos seguidores mais ativos das redes sociais.

Confira a programação de A Hora de Clarice em diversas cidades brasileiras e também em Buenos Aires. Depois, leia essa entrevista com o escritor José Castello, organizador de Clarice na Cabeceira.

22
ago

Domingo é o dia perfeito para atualizar as leituras. Hoje, lendo a edição de agosto do jornal Rascunho, me deparei com um texto interessante do José Castello publicado anteriormente em seu blog, A Literatura na Poltrona, sobre o medo como matéria-prima e força motriz da literatura. O escritor e jornalista evoca, então, duas figuras que muito tinham a dizer sobre o tema: Clarice Lispector e Julio Cortázar. A primeira, certa vez, depois de ler os originais de um conto do jovem Castello, tachou-o de medroso (”com medo ninguém escreve”, teria dito). Cortázar, por outro lado, encontrava justamente no sobrenatural, naquilo que mais o atormentava, a inspiração e o impulso para sua obra. (Diz-se, inclusive, que ele chegou a exorcizar alguns demônios interiores depois de escrever o conto “Carta a uma senhorita em Paris”, no qual o protagonista metaforicamente vomitava coelhinhos brancos.) Em minha leitura do artigo de Castello, sublinhei os seguintes trechos:

A literatura não é só filha do talento, da disciplina e da inspiração. Nasce, também, de sentimentos detestáveis que, de outra forma, talvez nos atormentassem até o fim dos nossos dias. Nasce do que temos de melhor, mas também do que temos de pior, e é preciso dizer isso com todas as letras“.

“A leitura de ficções muitas vezes gera medos que só se solucionam qando escrevemos novas ficções”.

O vórtice do pavor sempre foi a manifestação do sobrenatural, daquilo que não se pode tocar nem ouvir nem ver com os sentidos habituais” (citando Cortázar). “Em outras palavras: a literatura precisa do medo porque atua como um substituto do tato, da audição e da visão. O que não se pode nem tocar, nem ouvir, nem ver, ainda assim, se pode ler (e aqui a literatura se afirma como uma máquina de imaginar): só com esse substituto é possível inventar, sonhar, imaginar“.

Tanto na obra da brasileira quanto na do argentino o medo está lá, na forma de enfrentamento, transcendência, memória da infância, companheiro inseparável. Como disse o Castello, “não importa se você encara um abismo, ou se lhe dá as costas: o risco de cair é o mesmo. Nem olhar, nem fechar os olhos destroem o abismo.”