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É longa a lista de obras literárias que já se dedicaram à relação entre pais e filhos. Do sincero e comovente relato de Cristovão Tezza em O Filho Eterno ao desabafo espinhoso de Franz Kafka a seu pai, na famosa carta nunca entregue, o tema parece mesmo ser infindável.
Muitas vezes, a lembrança pode ser um caminho viável para um filho chegar ao seu genitor, como mostraram A invenção da solidão, de Paul Auster, e Quase memória, de Carlos Heitor Cony – e, já se sabe, onde há memória nunca falta imaginação. Caminho semelhante – embora bem mais sinuoso – foi trilhado por Beatriz Bracher em Antonio (Editora 34), um dos romances mais marcantes que li recentemente.
Publicado em 2007, o livro é armado de forma bem particular: Benjamin, o protagonista, descobre sem querer um segredo importante da sua família e, agora, quer saber como tudo aconteceu. Como os principais envolvidos já morreram, só lhe resta ouvir a história completa – ou versões dela – de três pessoas diferentes: sua avó, o melhor amigo de seu avô e um grande companheiro de seu pai. Assim, o leitor vai conhecendo a trama do livro ao mesmo tempo em que seu protagonista, numa história polifônica e estruturalmente complexa, porque dar conta de um passado cheio de lacunas, imprecisões e remorsos não pode ser tarefa simples.
A jornada de Benjamin em busca de Teodoro, seu pai, ganha novo significado quando sabemos que também ele experimentará a paternidade em breve, já que Antonio, seu filho, está prestes a nascer. No livro de Beatriz Bracher, é curioso que o personagem-título da obra ainda não exista e seu protagonista nada diga. Mas, assim como nas relações entre pais e filhos, às vezes o silêncio – e o ato de ouvir – pode ser a mais verdadeira expressão de afeto.
(Artigo publicado originalmente na edição de Dia dos Pais da revista ler&Cia, publicação bimestral da Livrarias Curitiba.)














