29
dez

2011 foi um ano bem especial para a literatura paranaense e tudo o que gira em torno dela: testemunhamos o nascimento do jornal da Biblioteca Pública do Paraná, o simpático Cândido, e o renascimento do projeto Um Escritor na Biblioteca; aplaudimos a conquista de dois prêmios Jabuti por dois curitibanos - na verdade, um deles radicado aqui -, Dalton Trevisan e José Castello; presenciamos a estreia da FLIM, como ficou conhecida a Festa Literária do Colégio Medianeira; conhecemos a nova livraria Arte e Letra e a primeira livraria Cultura de Curitiba - o paraíso distribuído em três andares.

Mas, para mim, o ano não teria o menor sentido sem a leitura destes livros:

Manual de putz sem pesares, de Luiz Felipe Leprevost (Editora Medusa, 2011)
“Para mariana, meus pequenos filminhos de terror”. Essa foi a dedicatória que o Leprevost escreveu na primeira página do livro, antes de entregá-lo para mim, numa tarde de janeiro no Lucca Café, antiga sede da Livraria Arte e Letra - mas poderia ter sido no Chuvaimóvel Café. E os 30 contos que ele nos apresenta são exatamente isso: filminhos de terror, na melhor atmosfera pulp: mistura de filme noir com pornochanchada brasileira. Sim, a clássica literatura de banheiro, e o que há de errado nisso? Afinal, “há momentos em que tudo o que um cara precisa é um pouco de pinga, coca e dança erótica”, como diz o conto homônimo dessa coletânea safada.

Amanhã. Com sorvete!, de Assionara Souza (7 Letras, 2010)
Ok, o livro é do ano passado. Mas meu primeiro contato com ele foi em abril de 2011, durante uma das leituras do projeto EntreMundos. Ou seja, antes de ler eu OUVI o texto de Assionara em voz alta, e é como devem ser lidos estes contos incrivelmente poéticos, sonoros, sensoriais. De Caicó a Curitiba, onde vive há mais de 2 décadas, Assionara imprimiu um estilo único à literatura “feita aqui”. Seu texto tem sabor, como um delicioso sorvete, provocando sensações diferentes a quem prová-lo com a ponta da língua. Os contos “Amoras frescas” e “Dentro da coisa” têm aquele tom melancólico sem perder o fino humor, como nos filmes da Miranda July. Por sinal, cinema aqui não falta. A começar pela divertida epígrafe do Jim Jarmusch.

Ocupado, de Adriano Esturilho (Editora Medusa, 2011)
Coleção de histórias curtas, sonoras, fragmentadas, experimentais, ambientadas em Curitiba, situadas entre a insônia e o pesadelo. Espécie de Georges Perec local, Esturilho cria uma obra onde a forma é revolucionária, anárquica e muito mais importante que o conteúdo. Para além do elaborado jogo de palavras, a nostalgia do Concretismo e do rock oitentista, Ocupado é uma jornada madrugada adentro pela cidade “pseudo-cosmopolita”, onde as notícias mais desgraçadas sempre chegam por telefone.

Pequena biografia de desejos, de Cezar Tridapalli (7 Letras, 2011)
Único romance da lista, o livro do Tridapalli é uma das melhores estreias literárias que já tive o prazer de ler. Maduro, profundo, envolvente e bem escrito são algumas das qualidades dessa pequena biografia, que narra a história do porteiro Desidério, aspirante a escritor. E agora você deu um longo suspiro, achando tedioso e previsível o fato de um livro de estreia tratar do próprio ato da escrita. Vá por mim, a obra é excelente, crítica, questionadora e cheia de sensibilidade. E mais que isso eu não digo, porque em breve sai a resenha que escrevi pra revista ler & Cia ;D

Nós passaremos em branco, de Luís Henrique Pellanda (Arquipélago editorial, 2011)
Um dos últimos que li neste ano, e é como se fosse um presente: o novo do Pellanda é, para mim, o grande livro de 2011. Entre 2009 e 2010, o autor publicou suas narrativas às quintas-feiras no site Vida Breve, que encerrou em 2011. As melhores crônicas foram selecionadas, algumas reescritas, outras renomeadas - uma acrescentada - e, agora, aparecem lado a lado neste volume. Lidas em sequência, elas formam o painel mais autêntico, atual e sombriamente poético de Curitiba, como um dia o fez Dalton Trevisan. Tudo acontece ali, entre as praças Osório e Santos Andrade, onde se espalham personagens invisíveis, demoníacos, ordinários: o homem com a menina no colo, os chupa-latas, o velho evangélico de coturnos, os fantasmas que assombram um edifício da Ébano Pereira, a Pequena Sereia da Boca Maldita. Flanar pelo centro da cidade nunca mais vai ser como antes, depois de ler as crônicas do Pellanda.

12
dez

Dois adolescentes. Um encontro secreto. Bum! Um ruído ensurdecedor e o prédio em construção vem abaixo. Sob os escombros, no escuro, absolutamente sozinhos e protegidos apenas por uma mesa de grápia, Rui e Júlia se recuperam do susto. E, enquanto esperam o resgate, têm tempo de sobra para se conhecerem.

Assim começa “O Estalo”, romance do escritor gaúcho Luís Dill escrito apenas com diálogos. Sem um narrador para descrever cenários ou analisar o que pensam e sentem os protagonistas, o leitor conta somente com esta longa conversa para desvendar, aos pouquinhos, quem são Rui e Júlia. Qual a relação entre eles? Como se conheceram? Afinal, o que estavam fazendo ali? A cada página, vamos descobrindo as diferenças e afinidades entre eles, sua visão de mundo, com o que sonham e o que desejam.

O texto de Luís Dill tem uma capacidade brilhante de se aproximar da linguagem e do contexto jovem, a quem se destina este livro - das referências culturais, que vão de tatuagens e piercings ao hit de Black eyed Peas, ao jeito inseguro de se expressar, típico da fase adolescente. Dill merece vencer hoje o Prêmio Açorianos de Literatura na categoria Juvenil, na qual concorre este ano. Se isso acontecer, será a terceira vez: em 2008, foi vencedor na categoria Conto com “Tocata e Fuga” e, no ano seguinte, com o juvenil “De carona, com Nitro“. O anúncio dos vencedores da maior premiação literária do Rio Grande do Sul acontece hoje às 20h no Teatro Renascença, em Porto Alegre.

“O Estalo”, publicado em 2010 pela editora Positivo, traz ainda uma série de desenhos muito originais de Rogério Coelho, que tinha como desafio ilustrar uma história inteiramente ambientada no escuro, protagonizada por personagens que não se veem. Usando apenas o preto, o branco e o azul, Rogério criou imagens enigmáticas e de extremo bom gosto, como todo o projeto gráfico do livro.

26
jun

Sabe aquele livro que você adora mas que, justamente por indicar e emprestar para todo mundo, nunca está em sua biblioteca quando você mais precisa dele? Pois, para mim, este livro é O Bigode (La Moustache, 1986), do francês Emmanuel Carrère. Com a notícia da sua vinda ao Brasil para a Festa Literária de Paraty, a editora Objetiva aproveitou para relançar a obra em português, pelo selo Alfaguara. Com uma novidade: além de O Bigode, a edição traz na sequência outra novelinha aterrorizante de Carrère, A Colônia de Férias (La Classe de neige, 1995), que eu li anos atrás como Férias na Neve, numa edição antiga da editora Rocco. A tradução de ambas é assinada por André Telles. A capa? Bom, a capa da Rocco era bem mais instigante…

Sobre a primeira narrativa, que John Updike classificou como “requintada, implacável e surpreendente”, fiz alguns comentários em um dos primeiros programas do Orelha do Livro, veiculado na rádio Lumen FM em dezembro de 2008. (Ouça aqui.)

Além da competência admirável de Carrère quanto à forma do texto, o tema da identidade é explorado sob um ponto de vista muito interessante, dentro da esfera conjugal e familiar. Como é possível ser íntimo de alguém e, ao mesmo tempo, um completo estranho? Como a distância se instala entre aqueles que um dia já foram tão próximos? E por que a imagem que o outro tem de nós pode ser tão poderosa, capaz de desestabilizar até mesmo quem somos?

Sobre A Colônia de Férias, digo apenas que é uma novela para ler num tiro, numa tarde, sem respirar. Thrillers com crianças são duplamente assustadores (e interessantes!), talvez por isso eu goste tanto dos filmes da Lucrecia Martel. E por falar em filme, ambas novelas de Emmanuel Carrère foram adaptadas para o cinema (uma delas, roteirizada pelo próprio). Os filmes nunca foram lançados comercialmente no Brasil, mas só pelo trailer de La Moustache e La Classe de Neige você já pode entender do que eu estou falando.

Nessa entrevista à Folha Ilustrada, publicada em abril, o autor comenta seus trabalhos mais recentes e a ideia de “romances verídicos”, presente em alguns de seus livros.

09
nov

Os leitores do jornal literário Rascunho já devem ter pensado, em algum momento, como seria bom reler e colecionar as entrevistas publicadas em suas páginas ao longo desta primeira década. A boa notícia é que a Arquipélago Editorial está lançando hoje às 19h30 no Quintana Café & Restaurante o primeiro volume do livro As melhores entrevistas do Rascunho, organizado pelo escritor e jornalista Luís Henrique Pellanda, que é subeditor e colunista do veículo.

A obra traz depoimentos de 15 dos mais expressivos escritores brasileiros, como João Gilberto Noll, Cristovão Tezza, Milton Hatoum e Bernardo Carvalho, entrevistados por Irinêo Baptista Neto, José Castello, Luiz Horácio, Pedro Carrano, Rogério Pereira e Luís Henrique Pellanda, entre outros. Um segundo volume da coletânea já está previsto para ser lançado em meados de 2011.

01
out

No ano retrasado, quando li o delicioso Jornal da Guerra Contra os Taedos, tive uma vontade imensa de conhecer os livros anteriores de seu autor, o lendário Manoel Carlos Karam. Mas de nada adiantava buscar nas livrarias - embora eu tenha encontrado uma edição de Encrenca (2002) num sebo atrás da Catedral. Há tempos as obras andavam esgotadas. Felizmente, nessa sexta-feira vou recuperar o atraso.
A pequena e notável Kafka Edições acaba de reeditar, de uma só tacada, os três primeiros livros de Karam, que formam a trilogia Alhures do Sul. São eles: Fontes Murmurantes (1985), O Impostor no Baile de Máscaras (1992) e Cebola (1997). O mais curioso é que o lançamento acontece no Joker’s Pub, que fica na mesma rua onde o autor morava. Passe lá nesta sexta, a partir das 20h, e não perca a chance de conhecer - ou reconhecer - um dos escritores mais originais do Brasil.

09
set

Outro dia recebi pelo correio o novo livro do Rui Werneck de Capistrano, um cara que não é bobo nem nada. Escreve muito, o que não significa que escreve demasiado. Nem bobo nem nada é feito de 150 fragmentos curtos e ligeiros que compõem o primeiro romancélere da literatura nacional. A celeridade, por sinal, é marca inconfundível do narrador, um pintor de paredes que mora na periferia de Curitiba com a mulher, uma carola gorda e crente, cuja devoção é inversamente proporcional à quantidade de dentes que tem na boca.

Mas a casa onde vivem anda em pé de guerra conjugal, para citar uma velha expressão do vampiro da Poláquia. A desdentada, mal-amada, teima que o marido tem amante. Não tinha, mas resolveu arranjar uma só de pirraça. Agora, a família do pintor não quer vê-lo nem pintado. É por isso que, nos domingos, diz pra mulher que tem serviço e vai com a outra passear no parque Tanguá. Erde!

A interjeição conhecida dos curitibanos – eufemismo para “merda”? – se repete no discurso do narrador. Sua voz é sempre crua, áspera e direta, como uma idéia que surge veloz no pensamento, mal dá tempo de refletir e pum, já está lá no papel, antecipada por um travessão:

– Agora, já não é a mesma coisa em casa. Tá fria comigo. Mais do que antes. Nem os pés das meias ela junta. Não enrola. Tudo espalhado na gaveta. De vinte pés não dá dois pares.

Os fragmentos vão se amarrando, ocupando quarto-cozinha-banheiro-área-de-serviço-garagem-fachada, como se o texto começasse na intimidade da casa e fosse expulsando o pintor pro lado de fora.

Classificado no prefácio de Caio Junqueira Maciel como uma espécie de “Machado de Assis baratinado tomando um porre de Dalton Trevisan”, Nem bobo nem nada é o décimo livro do escritor e publicitário curitibano, que em 1988 ganhou o Concurso Nacional de Contos do Paraná com a antologia “Máquina de escrever”. É o tipo de leitura de um fôlego só, que te pega pelas canelas, só desgrudando na última linha.

Mas, já vou avisando, de nada adianta procurar nas livrarias. Nem bobo nem nada está à venda exclusivamente pela internet, é só pedir pelo e-mail rwcapistrano@gmail.com e esperar o carteiro chegar. Garanto que você não vai se arrepender.

08
ago

Quase Memória, o “quase-romance” que marcou a volta de Carlos Heitor Cony à ficção, é uma homenagem verdadeira, poética e irreverente ao pai-herói da infância do autor, e também um pequeno tesouro da literatura brasileira. Ouça o podcast:

 
icon for podpress  Quase Memória [2:02m]: Play Now | Play in Popup | Download
14
jul

Cachalote, a ambiciosa “joint-venture” literária entre o escritor Daniel Galera e o quadrinista Rafael Coutinho, já pode ser encontrada nas livrarias há algumas semanas. O lançamento em Curitiba aconteceu hoje na Itiban (sim, estou postando atrasada, fazer o quê). Leia a matéria do Cristiano Castilho sobre a obra e não deixe de ler essa preciosidade!

04
jul

Papéis Inesperados, reunião de textos inéditos de Julio Cortázar encontrados em uma cômoda do apartamento onde viveu em Paris, chega às livrarias brasileiras

Mariana Sanchez, especial para a Gazeta do Povo*

O Natal de 2006 reservara um presente extraordinário ao editor catalão Carles Álvarez Garriga. Obcecado pela obra do argentino Julio Cortázar desde a adolescência, a quem dedicou sua tese de doutorado em filologia hispânica, Garriga fora convidado pela amiga e tradutora Aurora Bernárdez naqueles últimos dias de dezembro para dar uma espiada em um punhado de “papeizinhos” que encontrara em seu apartamento parisiense. Para seu assombro, o que aquela senhora de 90 anos – que havia sido a primeira esposa do autor de O Jogo da Amarelinha – retirava das gavetas de uma velha cômoda eram textos nunca antes publicados em livro, alguns guardados há mais de seis décadas.
O resultado desta descoberta deu origem a Papéis Inesperados, volume com quase 500 páginas e mais de cem escritos inéditos do autor argentino, selecionados pela dupla e publicados pela primeira vez em 2009, aos 25 anos da morte de Cortázar.

*Texto publicado no Caderno G de sábado, 03 de julho. Leia na íntegra.

17
jun

primeiro frio do ano
fui feliz
se não me engano

Sempre que um novo inverno curitibano se inicia eu preciso recitar este haicai do Paulo Leminski. Os melhores versos orientais do polaco do pilarzinho sem dúvida estão em La vie en close, mas este, incluído no livro Distraídos Venceremos, tem lá o seu charme.

No Japão, originalmente os haicais eram poesias com 17 sons, divididos em três versos: cinco sílabas no primeiro, sete no segundo e outras cinco no terceiro. Mas muitos autores brasileiros subverteram o formato, trazendo mais liberdade de forma e de temas ao gênero. Além de Leminski, Millôr Fernandes e Mário Quintana, para citar alguns haicaistas dos trópicos, um nome interessante é Massau Simizo, pouquíssimo conhecido por um motivo no mínimo poético: de tão tímido, ele se inscrevia em concursos literários com o nome da esposa, Lituka Simizo, quem recebia os prêmios enquanto o marido aguardava oculto na plateia. Falecido em 2005, Massau era paulista e médico de formação. Mas, em seu tempo livre, criou versos inspirados como este:

Ipê florido,
Anualmente se renova.
E nós?

Uma amostra do trabalho de Massau Simizo pode ser conferida no livro As quatro estações e outros haicais, lançado pela editora curitibana Aymará. A obra foi uma das finalistas do prêmio “O melhor para a criança”, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, considerada “altamente recomendável” pela instituição. Saiba mais sobre o volume no site da Aymará.