29
jul

Dois autores dos mais festejados da literatura em língua espanhola - guardadas as distâncias temporal e geográfica - estarão no projeto EntreMundos deste mês. Na próxima quarta-feira, dia 03 de agosto, Miguel de Cervantes e Roberto Bolaño terão alguns de seus textos lidos no Teatro da Caixa, em Curitiba, às 20h.

Do primeiro, espanhol da provícia de Madrid e autor do primeiro romance moderno da História, no século 16, serão lidos trechos de suas Novelas Exemplares. Do segundo, santiaguino nascido em 1953 e considerado um dos principais autores latino-americanos de todos os tempos, a obra escolhida é Putas Assassinas, que reúne 13 narrativas curtas. Venha e traga um livro não-didático. Para saber mais e acompanhar as outras edições, visite o blog do projeto EntreMundos.

11
jul

Uma manhã na praça, tomando sorvete de limão e ouvindo sabiás-crianças-sino-de-igreja. O encontro inesperado com Pedro Bandeira, autor da minha infância, com direito a abraço apertado, fotografia e dedicatória. A doce embriaguez das gelatinas de cachaça. Um animado Reinaldo Moraes, de Pornopopéia, dançando forró no pátio da Casa da Cultura. Paraty de manhãzinha da janela do meu quarto com paredes verdes. Sandro, de 10 anos, me contando a história do livro de Loyola Brandão que acabara de ler sob uma árvore. O teclado lindamente cafona de Marcelo Jeneci durante o show do Arnaldo Antunes. Os poemas lidos por Carol Ann Duffy, capazes de me fazer amar de novo a língua inglesa. Os poemas de Paulo Henriques Britto, capazes de me encantar sempre. As lágrimas de valter hugo mãe depois de ler sua carta sobre o Brasil. O Fado de Cada Um, canção portuguesa dos anos 50 cantada à cappella por ele, num barco, durante o coquetel da CosacNaify. David Byrne saindo de fininho do show de Arnaldo Antunes. Serrote 8 1/2. A comovente história das bolinhas de gude do avô narrada por Ignácio de Loyola Brandão. A cerveja compartilhada e o papo comprido com o escritor mineiro Carlos de Brito e Mello na festa da editora Globo. O beijo de batom de Pola Oloixarac na primeira página de suas Teorias Selvagens. A primeira vez que ouvi o idioma húngaro -o único que o diabo respeita -, lido por Péter Esterházy, que um dia vai ganhar o Nobel. A aula inesquecível de Antonio Candido sobre Oswald de Andrade. Camarões flambados na cachaça e saquê para acompanhar. O autógrafo indecifrável de Emmanuel Carrère num exemplar antigo de O Bigode, esgotado há tempos. Os cafés da manhã lactovegetarianos e as conversas infinitas com Ana Terra. Manifestações, protestos e flashmobs a qualquer esquina. O abraço coletivo no reencontro com Gil e Ciça, amigas paulistanas da primeira Flip. Fotografias do Alto Xingu projetadas na parede, na esquina da Matriz com a Samuel Costa. Tudo o que deixei de escrever e de fotografar, mas permanece guardado aqui, do lado esquerdo da camisa.


(Eliane, Ana Terra, eu, Felipe Arruda e Carla Alves curtindo os últimos dias da Flip.)

11
jul

Em agradecimento à Petrobras, que convidou este blog para passar alguns dias no paraíso de todo leitor, escrevi este texto. Não chega a ser um relato comovente, como a carta lida por valter hugo mãe, nem uma crônica brilhante, como as escritas pelo Antonio Prata, mas é genuinamente verdadeiro.

Foram dezenas de mesas literárias e livros autografados, páginas e páginas de anotações em caderninhos minúsculos e incontáveis quilômetros percorridos pelas vielas pedregosas de Paraty. A 9a Flip terminou ontem, fazendo desta segunda-feira uma existência particularmente difícil, menos pela estafa física da jornada do que pela nostalgia dos últimos dias. Nostalgia dos novos amigos e da circulação frenética de ideias, das conversas delirantes em torno de livros, autores, experiências e sonhos. Da paisagem colonial, da música dos cafés, das histórias compartilhadas, que ficarão por muito tempo.

Antes de voltar para casa, olhei para os meus pés e reparei como meus tênis estavam imundos. Então, me ocorreu que durante a Flip lemos pouco e caminhamos muito. Não há nada de errado com isso. Afinal, passamos o ano inteiro devorando livros, merecemos viver essa epifania literária coletiva na primeira semana de julho em Paraty. Um tempo de festa, de celebrar a literatura não só nas bibliotecas e livrarias, mas também nos bares, cafés, debaixo de uma árvore, ouvindo as badaladas do sino da igreja.

E, às vezes, ler o mundo e a vida com os pés pode ser mais interessante do que ler com a cabeça, o que de algum modo nos sugere Oswald de Andrade, o homenageado desta Flip. O famoso Abaporu, presenteado por Tarsila no dia do aniversário do modernista, tem pés gigantes e uma cabeça pequenininha, invertendo o Pensador de Rodin e homenageando o corpo, a mobilidade, a experiência do caminhante errático. Se a tela falasse, ela contaria a importância de pensar por si próprio e andar com os próprios pés. E é assim, errando em tropeços pelas ruas de Paraty, com a cabeça enfiada em livros ou nas nuvens, que a Flip se abre para nós. 

E cada poeirinha destes tênis imundos está orgulhosamente impregnada desta semana, destas histórias.

08
jul

Desde que o primeiro capítulo do livroremorso de baltazar serapião” foi publicado na revista curitibana Arte e Letra Estórias, no ano passado, o nome de valter hugo mãe tem me despertado interesse. Ao chegar em Paraty, comprei na Livraria da Vila seu elogiado “a máquina de fazer espanhóis“, que provavelmente só lerei depois da flip. Mas, mesmo sem ter lido praticamente nenhum texto do autor português, nascido em Angola, é difícil não me tornar sua grande admiradora. mãe (sempre em minúsculas, como ele gosta) tem fala tranquila e inteligente, e suas colocações são sempre pontuadas de humor, afeto e uma certa melancolia.

Depois da declaração de amor que fez ao Brasil na mesa de hoje - que pode ser lida aqui, na íntegra -, mãe ganhou fãs apaixonados, para os quais dedicou mais de 4 horas assinando seus livros. Se o português - que até o mês passado era um completo desconhecido no país - será lido por todos que ganharam seu autógrafo hoje, isso não se sabe. Mas ele se mostrou muito aberto ao desejo de estreitar o diálogo literário entre Brasil e Portugal - e isso desde seus tempos de editor, quando publicou a até então inédita poesia completa de Ferreira Gullar daquele lado do Atlântico.

Na mesa de hoje, que ele dividiu com uma exuberante Pola Oloixarac, mãe falou sobre sua tetralogia, concluída com “a máquina de fazer espanhóis”. Os quatro romances estão traçados em torno de personagens com 8, 19, 40 e 84 anos de idade, percorrendo todo o ciclo da vida humana. O próximo projeto, segundo ele, pretende ser algo bastante autobiográfico, sobre um homem que em certo ponto da vida passa a traçar estratégicas para formar uma família. Se tornar pai. Prestes a completar 40 anos, mãe disse acreditar que existe, dentro de nós, um tipo de amor reservado para alguém que ainda não nasceu. E contou que mãe é um nome inventado, em homenagem ao “ser mais incondicional que existe”. Para ele, que nasceu Valter Lemos, a utopia do artista é justamente criar uma relação incondicional com sua obra e fazer com que ela exprima e possa influir na vida de seus leitores.

Pontos de fuga era o nome da mesa que reuniu mãe e Pola Oloixarac. Achei até curioso, porque Pola parecia estar “fugindo” do papel sentimental e emotivo historicamente destinado à mulher na literatura, ao lançar um romance divertido mas muito cerebral e intelectualmente ambicioso; enquanto valter hugo mãe revelou uma fuga em direção contrária, do homem que escolhe o papel amoroso, familiar e incondicional da mãe. Para terminar a mesa mais emotiva da flip até agora, lágrimas e aplausos não poderiam faltar.

08
jul

Já aconteceu com você de a internet inteira falhar, exceto o Facebook? Pois bem, diante da minha impossibilidade de descarregar meus registros fotográficos aqui no blog, tive de recorrer a mais social das redes e postar tudo lá, no Facebook.

O dia de hoje foi cheio. De manhã, tentativa frustrada de ouvir Ana Maria Machado e Bartolomeu Campos de Queirós na Casa da Cultura. Mas logo fui recompensada com o lirismo crítico de Paulo Henriques Britto - um dos poetas de que mais gosto -, na mesa que dividiu com a britânica Carol Ann Duffy - quem me fez recuperar o amor pelo idioma inglês, enquanto lia seus poemas e nos brindava com seu belo sotaque. A Cia das Letras distribuiu um caderninho com a seleção dos versos de Britto em edição bilíngue, alguns deles traduzidos pelo autor. Dentre as suas “Nove variações sobre um tema de Jim Morrison“, reproduzo a última aqui:

Todo todo é menor que a menor parte,
muitos mundos cabem numa avelã.
Não há dia que não morra numa tarde,
nem noite que não se acabe em manhã.

E, como a noite já vai tarde, melhor dormir (talvez sonhar), porque amanhã cedo tem viagens literárias com Andrés Neuman e Michael Sledge. Na sequência, Pola Oloixarac, valter hugo mãe (que ouvi agora pouco no painel da Brazilian Publishers sobre a promoção da literatura brasileira no exterior), Emmanuel Carrère, Péter Esterházy, Lourenço Mutarelli, Ignácio Loyola Brandão e o dia vai ser grande demais para caber numa avelã.

07
jul

Em 2008, quando o Orelha do Livro era só uma ideia na cabeça e este blog nem existia, encarei minha primeira Flip movida pela curiosidade de conhecer pessoalmente a cineasta Lucrecia Martel - de quem ganhei um autógrafo na primeira folha da historieta El Eternauta, que ela pretendia levar às telas, além de frequentar sua concorrida oficina de roteiro. Este ano, para minha felicidade, volto à maior celebração nacional da literatura a convite da Petrobras, que descobriu o Orelha do Livro meio por acaso, neste mar de blogs literários que povoam o ciberespaço. Me acompanham na viagem a escritora e ilustradora Ana Terra, e o crítico e escritor Felipe Arruda.

Como em 2008, a edição deste ano também me aproxima do sotaque portenho. Desta vez, de Pola Oloixarac - autora de As Teorias Selvagens e candidata a celebridade cult da festa -, Andrés Neuman - vencedor do prêmio Alfaguara pelo romance O viajante do século, que comecei a ler essa semana - e Gonzalo Aguilar - autor de um dos melhores livros que li sobre a obra de Lucrecia Martel e de um volume de ensaios sobre Oswald Andrade, o homenageado da 9a Flip. Por sinal, a conferência de abertura trouxe depoimentos apaixonados e muito pessoais de José Miguel Wisnik e Antonio Cândido sobre o poeta antropófago. Como acontece com quase todo cânone das letras nacionais que somos obrigados a ler na escola, confesso que tinha pouco interesse na figura do modernista. Ouvir o mestre Antonio Cândido falar sobre o amigo me encheu de ânimo e desejo de devorar a obra de Oswald.

O dia de hoje foi cansativo e acabei desistindo de sacolejar ao som de Elza Soares, no show de abertura. Mas a Flip está só começando, e o clima em Paraty - apesar das condições climáticas nada animadoras - está mesmo uma delícia. O almoço para convidados, servido em mesas espalhadas pelo jardim de um charmoso casarão, já deu um gostinho de como serão os próximos dias: papos apaixonados sobre literatura, livros por toda parte, cachaças artesanais (por vezes disfarçadas de gelatina, de sobremesa) e escritores interessantíssimos circulando por aí sem nenhuma formalidade. No almoço de hoje, nem sei quantas vezes topei com Emmanuel Carrère, Edney Silvestre e Andrés Neuman. Joe Sacco foi um dos últimos a levantar da mesa e Péter Esterházy  era avistado de longe, com sua esvoaçante cabeleira branca. Difícil mesmo era saber se o careca que passava pra lá e pra cá era Alberto Mussa ou valter hugo mãe.

Os poucos registros fotográficos até o momento ficam pra amanhã, depois do café. Enquanto isso, tem muitas fotos, informações e vídeos - inclusive com a transmissão ao vivo da festa - no site oficial da Flip.

05
jul

A edição de julho do projeto entreMundos: mundo da leitura, leitura do mundo trará textos do escritor alemão W. G. Sebald e do japonês Yasunari Kawabata, respectivamente dos livros “Os Emigrantes” e “Contos da Palma da Mão”. É amanhã às 20h no Teatro da Caixa, e o ingresso custa um livro não-didático. O projeto tem direção de Flávio Stein, que este mês também entoará as leituras ao lado dos atores Mauro Zanatta e Leandro Daniel Colombo, com acompanhamento de Thomas Jucksch no violoncelo. A apresentação dos textos - e a mediação do bate-papo - fica por conta do professor da UFPR, Paulo Soethe. Até o fim do ano, outros autores foram escalados para a leitura coletiva, confira aqui.

25
jun

Que os eventos literários são hoje cada vez mais numerosos, isso todo mundo já percebeu. Mas chama atenção o número de encontros, bate-papos e oficinas em torno do fazer literário realizados em Curitiba cidade que, nos últimos dois anos, já recebeu duas Bienais do Livro diferentes.

Para refletir sobre o tema, a edição de hoje do jornal Gazeta do Povo trouxe uma matéria comentando os principais eventos da cidade, entre eles o Autores & Ideias, do SESC-PR, do qual sou curadora. O texto questiona a participação por vezes pequena do público  no evento do SESC, por exemplo, que percorre 10 cidades paranaenses, a plateia dos municípios do interior chegou a reunir 300 pessoas, enquanto na capital houve edições com menos de 15. Em todo caso, acho complicado esperar públicos muito numerosos para discutir uma arte que sempre interessou a poucos, especialmente aquela literatura que foge do mainstream, que encanta e faz refletir. Ao contrário do cinema, do teatro e da música, cuja fruição costuma ser mesmo coletiva, a literatura é quase sempre uma atividade individual, tanto para quem a produz quanto para os que estão do outro lado. É também uma atividade menos “passiva”, porque exige a interação do leitor para acontecer, para existir. Isso, é claro, assumindo que o público dos eventos literários realmente lê aquilo que discute. Mas aí já é outro papo.

Em tempo: daqui a duas semanas acontece a Flip, a grande festa brasileira de literatura, que este ano chega a sua 9a edição. Depois de três anos, estarei lá outra vez. A missão: descobrir se Péter Esterházy usa peruca e tentar convencer o Emmanuel Carrère de um terrível bigode cresce em estágio avançado sob o seu nariz.

Na foto de Shigueo Murakami (que, aliás, tem sobrenome de escritor), eu, Fabrício Carpinejar e Sérgio Rodrigues em bate-papo sobre literatura e internet na Feira de Livros do SESC, em 2009.

10
jun

A edição deste mês do ciclo Autores & Ideias discute um tema que sempre inspirou os escritores: as cidades. Sejam elas reais (o Rio de Janeiro machadiano, a Curitiba de Dalton Trevisan) ou imaginárias (da Antares de Érico Veríssimo à Santa Maria do Juan Carlos Onetti). Para falar sobre as relações entre ficção, urbanidade e outros territórios, o projeto do SESCPR recebe em junho os autores Luiz Ruffato e Ana Teresa Jardim. Confira a programação e participe deste debate em sua cidade:

06
jun

‘nada a dizer’ from elvira vigna on Vimeo.

Nesta terça-feira às 19h eu converso com a escritora (e ilustradora e tradutora) Elvira Vigna, que este ano concorre ao prêmio Portugal Telecom de Literatura com o romance Nada a Dizer. O video acima é uma apresentação do livro, mas também uma pequena amostra das ideias e questões sempre interessantes que permeiam sua obra. O bate-papo de amanhã com Elvira Vigna faz parte do projeto Um Escritor na Biblioteca, da Biblioteca Pública do Paraná, no qual o autor convidado fala ao público sobre sua formação como leitor e a relação com as bibliotecas de sua vida. Até o fim do ano, o projeto receberá Luiz Ruffato, Marçal Aquino, Milton Hatoum, Reinaldo Moraes, entre outros autores. A atividade tem entrada franca e acontece no Auditório Paul Garfunkel, segundo andar. Mais informações: (41) 3221-4900.