29
jan

The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore from Moonbot Studios on Vimeo.

Eu já vi muitas animações, stop-motions e outros videos lindíssimos que expressam a paixão dos leitores pelos livros. Mas nenhum tão sensível e comovente como este. O curta-metragem - que concorre ao Oscar 2012 - conta a história de pessoas que dedicaram suas vidas aos livros e como estes pedaços de papel com letrinhas impressas são capazes de retribuir o “favor”. Espero sinceramente que o filme leve a estatueta.

01
jan

Sabático, suplemento literário do Estadão, desafiou a imaginação de quatro escritores para escrever um conto coletivo de Ano-novo. “Réveillon” teve sua primeira parte escrita pelo português valter hugo mãe, um dos destaques de 2011 no Brasil, por conta da sua participação na FLIP e pelo lançamento de duas obras suas por aqui. Quem dá continuidade à estória é a gaúcha Carol Bensimon, de quem li o excelente volume de contos Pó de Parede. Na sequência, o cearense Ronaldo Correia de Brito e a portuguesa Inês Pedrosa arrematam o conto, que pode ser lido na íntegra - mas dividido em partes - aqui. O resultado ainda foi “avaliado” pelo professor de literatura da USP, Alcides Villaça.

Ilustração: Catarina Bessell

06
dez

Em setembro de 1900, o escritor americano Mark Twain inaugurou uma biblioteca popular no bairro londrino de Brent, nas imediações de Kensal Rise. Agora, o centenário reduto literário luta para manter suas portas abertas, desde que um plano de austeridade britânico decidiu fechar centenas de bibliotecas municipais. Só em Brent, foram seis no último ano. Hoje, a Folha de São Paulo comentou o caso, em matéria da France Press.

Moradores do bairro, escritores e personalidades musicais criaram um movimento de resistência com direito a blog para arrecadar fundos e uma biblioteca alternativa, funcionando do lado de fora do prédio. A “Pop-up library”, como foi chamada, é uma linda iniciativa de pessoas apaixonadas por livros. Todos os dias, elas aumentam o acervo com novas obras à disposição para empréstimo, se revezam para cuidar do lugar e mobilizam mais leitores junto à causa. O objetivo é que os próprios moradores passem a administrar a biblioteca com autonomia, tirando-a das mãos da prefeitura. Recentemente, a Suprema Corte de Londres considerou ilegais as decisões das prefeituras de Somerset e de Gloucestershire (leste da Inglaterra) de retirar seus financiamentos a cerca de um terço de suas bibliotecas - o que só aumenta as esperanças dos leitores apaixonados de Kensal Rise.

09
set

Nestas férias, pude comprovar que Buenos Aires continua sendo uma das cidades mais espetaculares do mundo quando o assunto é visitar livrarias - e, naturalmente, comprar livros. Como o templo El Ateneo Gran Splendid (Av. Santa Fe, 1860) já esteve no meu roteiro em visitas anteriores à capital, dessa vez me dediquei a descobrir novos endereços. Começando por Gambito de Alfil, no bairro de Caballito, a poucos passos da Faculdade de Artes e Filosofia da Universidade de Buenos Aires. Batizada com o nome de uma jogada de Xadrez, a Gambito foi fundada em 1989, e desde então é muito frequentada pelo pessoal da área de Humanas, entre alunos e professores da Faculdade. Um deles é Martín Kohan, que além de fazer compras por lá também tem títulos seus à venda - como o romance Ciencias Morales, vencedor do prêmio Herralde 2007, que comprei na Gambito de Alfil.

Continuando o recorrido livreiro, outro endereço imperdível para todo leitor que se preze é a livraria e editora Eterna Cadencia, no coração do Palermo. Há tempos conheço os títulos editados pelo selo, só faltava mesmo conferir seu espaço físico. E não me decepcionei: a livraria fica num casarão antigo, dividido em ambientes diferentes, onde não faltam prateleiras abarrotadas de livros (do chão ao teto) e imensos lustres clássicos, que dão um charme especial ao lugar. Uma “casa tomada por escritores”, como diz seu slogan - de fato, parece que o Pedro Mairal não sai de lá. Enquanto conversava com o livreiro - que me mostrava orgulhoso a edição recém saída do prelo de Ellos eran muchos caballos, do brasileiro Luiz Ruffato -, a campainha não parava de tocar. É que toda terça-feira às 19h acontecem leituras, saraus e oficinas ali mesmo, no café da Eterna Cadencia. Escritores e aspirantes são o público cativo do lugar, especialmente neste mês, em que a livraria é uma das sedes do Filba (Festival Internacional de Literatura de Buenos Aires, que começou nessa sexta-feira). Para quem se interessa pela nova ficção argentina e por encontros literários em que se fala sobre tudo e sobre nada, este é o lugar.

Além de livrarias lindíssimas, Buenos Aires também oferece centenas de sebos (muitos deles ao longo da Av. Corrientes, mas também na galeria Las Victorias, em frente à plaza Libertad, e na Galería Buenos Aires, calle Florida, 835) e banquinhas instaladas em praças ou parques, onde se pode comprar raridades por poucos pesos argentinos. Um destes lugares é a feira permanente de livros do parque Rivadavia, em frente à estação de metrô Acoyte - reduto de felinos preguiçosos banhando-se ao sol e senhores de cabelos de algodão disputando acirradas partidas de xadrez. Lá, os preços são especialmente convidativos, e não é incomum barganhar. Se bem que, quando você se depara com um Juan Gelman por 15 pesos (7 reais!), pega até mal pedir desconto.

Se você é realmente obcecado pelo assunto e pretende empreender uma viagem mais séria e aprofundada pelas livrarias portenhas, sugiro consultar o guia El libro de los libros, que traz endereços atualizados e listados por ordem alfabética. A seguir, alguns cliques de Elisandro Dalcin, que eu conheci há quase 10 anos. Numa livraria, é claro.


Gambito de Alfil: esquina das ruas Puan e José Bonifacio, em Caballito.


Eterna Cadencia: calle Honduras, 5574, Palermo.


Feira de livros, revistas, cds e dvds do parque Rivadavia: estação Acoyte, Caballito.


Sebo da galeria Las Victorias, esquina das ruas Marcelo Alvear e Libertad.

24
ago

Eu, hoje, acordei mais cedo
e, azul, tive uma idéia clara.
Só existe um segredo.
Tudo está na cara.

(p.l. em Distraídos Venceremos)


(Caricatura de Marcos Guilherme)

No dia em que o poeta do Pilarzinho completaria 67 anos, a Biblioteca Pública do Paraná e o Museu da Imagem e do Som abrem a exposição “Clics em Curitiba“, com 24 painéis de fotos de Jack Pires e poemas de Paulo Leminski, publicados originalmente no livro “40 clics em Curitiba”, de 1976. As obras ficam expostas no hall de entrada da BPP a partir das 19h.

Ainda hoje, o documentário “Ervilha da fantasia - uma ópera Paulo Leminskiana“, de Werner Schumann, será exibido às 19h30 no Auditório Paulo Garfunkel, também na BPP. Um pouco antes, às 17h30, haverá a leitura dramática do texto “O dia em que morreu Leminski”, do jornalista e dramaturgo Rogério Viana, com direção de Léo Moita e participação dos atores Felipe Custódio, Val Salles e Naiara Bastos. Todas as atividades têm entrada franca. Mais informações: (41) 3221-4917

O homenageado do dia pelo Google (acima) é o argentino Jorge Luis Borges, que completaria 112 anos se estivesse vivo. Quem sabe um dia veremos o bigodudo que falava latim na home do buscador. Daria uma caricatura e tanto.

06
ago


Leminski retratado pelo cartunista Rafael Sica, na capa da edição de estreia.

No mês em que Paulo Leminski completaria 67 anos, sua cidade-natal ganha mais uma interesante publicação literária, com o primeiro número homenageando o bigodudo que sabia Latim. Nos primeiros dias de agosto de 2011, nasceu Cândido, o jornal mensal da Biblioteca Pública do Paraná. O nome é uma homenagem a Cândido Lopes, fundador do mítico Dezenove de Dezembro, o primeiro periódico a circular no Estado, em 1854 - exatamente 100 anos antes da construção do prédio da Biblioteca, na rua que também foi batizada com seu nome. A simpática alcunha ainda combina com a tradição local de publicações literárias com nomes próprios (e sempre masculinos), como Joaquim (revista editada por Dalton Trevisan nos anos 1940) e Nicolau (lançada na década de 1990 por Wilson Bueno).

Com a chegada de Cândido, a Biblioteca passa a abranger todo o ciclo de formação de leitores e escritores: além de oferecer quase meio milhão de livros para empréstimo, a instituição tem realizado desde o início do ano oficinas de formação de escritores e leitores, promovido bate-papos com autores e, agora, ampliado o debate em torno dos livros com o novo jornal, onde parte desta produção será escoada. Isso porque, todo mês, Cândido publicará o resultado de uma das oficinas literárias da BPP. O texto escolhido para a primeira edição é fruto das aulas de crônicas ministradas por Humberto Werneck, e leva a assinatura da publicitária Alessandra Moretti. Cândido traz notícias curtas, um ensaio de maior fôlego, matérias, entrevistas e uma coluna de inéditos, além da seção Um Escritor na Biblioteca, que compila os melhores momentos do projeto homônimo - todo segundo domingo do mês, o bate-papo é exibido na TV Educativa do Paraná às 11h15 e, ao final do ano, ganhará edição em livro. Na Cândido # 01, você pode ler trechos da minha conversa com a escritora Elvira Vigna, onde ela fala sobre sua formação como leitora, a importância da biblioteca da Aliança Francesa em sua vida, entre vários outros assuntos.

Com um projeto gráfico simples e despojado, Cândido privilegia também os artistas visuais e humoristas da cidade, trazendo cartuns, tiras, poemas ilustrados e a seção “Retrato de um Artista“, que neste número ilustra o escritor norte-americano Ernest Hemingway no traço de Pedro Franz. O jornal tem coordenação editorial de Rogério Pereira e Luiz Rebinski Júnior, e tiragem de 5 mil exemplares, distribuídos gratuitamente nos espaços da Fundação Cultural de Curitiba. Pegue o seu e boa leitura.

Hemingway em desenho de Pedro Franz.

17
jul

Só mesmo um apaixonado por tipografia teria uma ideia como esta. Roberto de Vicq de Cumptich, designer carioca há anos radicado em Nova York, criou uma série de retratos de escritores onde, ao invés de desenhos, seus rostos são feitos de letras. Mas não qualquer letra: apenas aquelas que formam seu nome, e todas dentro de uma mesma família tipográfica.

O resultado – maravilhoso! – pode ser visto nas páginas da revista Serrote 8 ½, lançada durante a Festa Literária de Paraty e distribuída gratuitamente. Não pegou a sua? Tudo bem, dê uma espiada aqui e veja alguns retratos em movimento. Fantástico o Drummond aí em cima, né? E tem mais escritores na galeria de letras:


Virginia Woolf


J. M. Coetzee


Oscar Wilde

25
jun

Que os eventos literários são hoje cada vez mais numerosos, isso todo mundo já percebeu. Mas chama atenção o número de encontros, bate-papos e oficinas em torno do fazer literário realizados em Curitiba cidade que, nos últimos dois anos, já recebeu duas Bienais do Livro diferentes.

Para refletir sobre o tema, a edição de hoje do jornal Gazeta do Povo trouxe uma matéria comentando os principais eventos da cidade, entre eles o Autores & Ideias, do SESC-PR, do qual sou curadora. O texto questiona a participação por vezes pequena do público  no evento do SESC, por exemplo, que percorre 10 cidades paranaenses, a plateia dos municípios do interior chegou a reunir 300 pessoas, enquanto na capital houve edições com menos de 15. Em todo caso, acho complicado esperar públicos muito numerosos para discutir uma arte que sempre interessou a poucos, especialmente aquela literatura que foge do mainstream, que encanta e faz refletir. Ao contrário do cinema, do teatro e da música, cuja fruição costuma ser mesmo coletiva, a literatura é quase sempre uma atividade individual, tanto para quem a produz quanto para os que estão do outro lado. É também uma atividade menos “passiva”, porque exige a interação do leitor para acontecer, para existir. Isso, é claro, assumindo que o público dos eventos literários realmente lê aquilo que discute. Mas aí já é outro papo.

Em tempo: daqui a duas semanas acontece a Flip, a grande festa brasileira de literatura, que este ano chega a sua 9a edição. Depois de três anos, estarei lá outra vez. A missão: descobrir se Péter Esterházy usa peruca e tentar convencer o Emmanuel Carrère de um terrível bigode cresce em estágio avançado sob o seu nariz.

Na foto de Shigueo Murakami (que, aliás, tem sobrenome de escritor), eu, Fabrício Carpinejar e Sérgio Rodrigues em bate-papo sobre literatura e internet na Feira de Livros do SESC, em 2009.

23
jun

Num tempo em que o “politicamente correto” parece dominar o discurso da sociedade, quando qualquer dedozinho em riste está prestes a detonar uma bomba, as pessoas andam tomando mais cuidado antes de tecer críticas e expressar seus pontos de vista. Ok, nem todos, como mostrou V.S. Naipaul, prêmio Nobel que declarou recentemente não existir nenhuma mulher na história da literatura capaz de rivalizar com ele, e que basta ler um ou dois parágrafos para saber se quem o escreveu era homem ou mulher. Nem é preciso dizer que o escritor foi acusado de machista, ególatra, misógino e outras coisas piores.

Pra piorar, Naipaul, que escreve em inglês, ainda criticou a grande dama da literatura inglesa, Jane Austen. Não faltou orgulho e preconceito na declaração do escritor, mas faltou, talvez, um pouquinho de humor. Pensei nisso agora, depois de ler a compilação de insultos e provocações entre escritores renomados, publicada essa semana pelo site Flavorwire (leia em português, pela revista Trip).

Nela, 30 autores consagrados, como Gustave Flaubert, Vladimir Nabokov (foto), Virginia Woolf e Truman Capote criticam duramente outros cânones, como James Joyce, Marcel Proust e a quase-unanimidade entre os literatos, Fiódor Dostoiévski. Nem o clássico de Cervantes escapou da língua afiada do Martin Amis.

Mas é do irreverente Mark Twain a frase mais engraçada: “Eu não tenho o direito de criticar nenhum livro e eu nunca faço isso, a não ser quando odeio um. Sempre quero criticar a Jane Austen, mas seus livros me deixam tão bravo que eu não consigo separar minha raiva do leitor, portanto eu tenho que parar a cada vez que começo. Cada vez tento ler Orgulho e Preconceito eu quero exumar seu cadáver e acertá-la na cabeça com o osso da sua canela.“ 

É a mesma Jane Austen criticada pelo Naipaul. Só que, neste caso, sem nenhum ranço sexista e com a boa e velha ironia, que corre o risco de morrer nestes tempos de “politicamente correto”.

15
jun

A edição deste mês da revista Piauí traz uma reportagem no mínimo triste para escritores e jornalistas nostálgicos, que um dia já batucaram com empolgação as teclas do invento de Henri Mill: sim, depois de resistir bravamente, a última fábrica de máquinas de escrever mecânicas do mundo fechou no mês passado. A indiana Godrej & Boyce Manufacturing Company tinha vendido menos de mil exemplares no último ano, tornando o negócio inviável. É o fim de uma era - que, a bem da verdade, já acabou há décadas. (Para os românticos e colecionadores, achei vários modelos à venda no Mercado Livre, inclusive uma Olivetti Lettera igualzinha a que eu tinha em casa.)

Apesar de um costume anacrônico, usar máquinas de escrever hoje em dia ainda tem lá suas vantagens, especialmente para quem escreve. Afinal, é a melhor maneira de se concentrar de verdade no texto e não cair na tentação de abrir e-mails ou janelinhas do Facebook. Além disso, há quem opine que as máquinas de escrever tornam o texto mais valioso do que aquele digitado no computador, onde a qualquer momento é possível corrigir, retroceder e apagar as “marcas de hesitação, dúvida ou embate físico” do autor com a palavra. Sem contar que as teclas pesadonas ajudavam até a exercitar os músculos - ou você conhece algum caso de escritor com lesão por esforço repetitivo ao datilografar um romance extenso?

Na reportagem da Piauí, há uma galeria com bonitas imagens de escritores, jornalistas e artistas ao lado de suas inseparáveis Remingtons, Hermes e Olivettis. Na foto de 1967 aí de cima, o crítico Antonio Candido e a Royal presenteada pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, de onde saiu seu “Raízes do Brasil”, ainda na década de 30.