
No dia 08 de abril de 2000, uma década atrás, nascia em Curitiba o jornal Rascunho – inicialmente um suplemento do Jornal do Estado, hoje uma das publicações sobre literatura de maior prestígio e relevância no país. Leia na íntegra a entrevista que fiz por e-mail com Rogério Pereira, editor e idealizador desta iniciativa merecedora de aplausos, que sobrevive com dificuldades, mas consciente de sua importância para o debate literário nacional.
Como e por que surgiu o Rascunho, em abril de 2000?
O Rascunho nasceu para ser um suplemento literário de Curitiba, sem grandes pretensões nacionais. Na época, os jornais da cidade não tinham (e até hoje não têm) um suplemento dedicado exclusivamente à literatura. Portanto, o jornal nasceu desta carência e da vontade de um grupo de jovens de fazer algo que consideravam interessante no jornalismo. Desde o início — e isso se explica, talvez, pelo ímpeto juvenil que nos rondava; todos tínhamos pouco mais de 20 anos e havíamos deixado a universidade recentemente —, o Rascunho sustentou uma proposta de crítica livre, sem vínculos com grupos, panelinhas, etc. Não queríamos fazer um suplemento parecido com o que ofereciam os grandes jornais. Partimos para uma “missão” um tanto iconoclasta. Hoje, mesmo com o amadurecimento do jornal, o Rascunho ainda é visto e reconhecido (o que é muito bom) como um veículo combativo, desapegado de tendências. Tem um DNA turrão. Enfim, é um amplo palco para discussões de maneira salutar e honesta. Também tínhamos uma preocupação em conceder espaço aos autores que estavam fora da grande mídia. Isso é uma marca do jornal que segue forte até hoje.
Como era o jornal na época, e o que mudou de lá pra cá?
Muita coisa mudou nestes 10 anos, principalmente em qualidade editorial. No início, tínhamos oito páginas, com cerca de 20 colaboradores. O Rascunho era um suplemento do Jornal do Estado. Agora, chegamos à edição 120 com 40 páginas e cerca de 60 colaboradores de todas as partes do Brasil. Além disso, o Rascunho é, desde 2004, um jornal independente. Neste longo período, conquistamos um espaço entre os veículos culturais brasileiros. A tiragem é de 5 mil exemplares e chega a todos os estados brasileiros por meio de assinatura. Recentemente, o Rascunho foi escolhido uma das publicações em um edital para a venda de 7 mil assinaturas para o Ministério da Cultura. Estamos aguardando apenas o trâmite interno do MinC. Com isso, a tiragem passará para 12 mil exemplares. Para um jornal que nasceu para ter vida muita curta, até que estamos indo bem longe.
O cenário da literatura brasileira também sofreu transformações nestes dez anos?
Em 10 anos, tudo sofre algum tipo de transformação. Na literatura brasileira, alguns fenômenos interessantes são evidentes. 1) A chegada de grandes grupos editoriais estrangeiros, como Alfaguara e Planeta, mostra que o mercado brasileiro ainda tem muito espaço para crescer. 2) Os novos autores ganharam oportunidade nas grandes casas editoriais. Hoje, é muito comum uma grande editora apostar em livros de estréia. Portanto, facilitou-se muito o surgimento de novas vozes. 3) Há uma quantidade imensa de festivais, bienais, encontros, feiras, etc. em torno da literatura em todo o país. Há, com certeza, um ambiente mais favorável à literatura no Brasil. No entanto, não afirmo que há um ambiente ideal, mas é muito melhor do que era há 10 anos, por exemplo. Uma prova disso é que o Rascunho consegue sobreviver, mesmo o Brasil não sendo ainda um país muito encantado pela literatura.
Quantos assinantes o jornal possui hoje?
Entre cortesias e assinaturas, enviamos cerca de 1.500 exemplares para todo o País. Para o restante (3.500), temos uma distribuição dirigida nas 17 lojas da Livrarias Curitiba (SP, PR, RS e SC), Biblioteca Pública do Paraná, Livraria do Chain, Ghignone, Fundação Cultural de Curitiba, Faróis do Saber, entre outros pontos na capital paranaense.
Além do Paiol Literário, que outros projetos o Rascunho desenvolveu ou desenvolve atualmente?
Para sobreviver, o Rascunho tem de inventar muitas coisas ligadas à literatura. A que deu mais certo até agora é o Paiol Literário, que em 19 de maio entra na quinta temporada. Já trouxemos 38 autores a Curitiba. Os encontros serão editados em livro em breve. Além disso, já mantivemos uma oficina de criação literária. Também, abri em 2008 o Quintana Café & Restaurante, que é um projeto que une literatura e gastronomia. Além disso, o Rascunho possibilita que eu realize curadorias para feiras e bienais. Para 2010, estão previstos dois volumes com as melhores entrevistas nestes 10 anos. Serão 40 entrevistas. A editora é a Arquipélago, de Porto Alegre. Também teremos um novo site e, possivelmente, lançaremos o Prêmio Rascunho de Literatura, em parceria com uma grande editora.
O interesse pela literatura brasileira vem crescendo no país, impulsionado pela internet, ou este público ainda é restrito?
Como respondi anteriormente, há uma ambiente mais favorável à literatura hoje em dia. A internet, obviamente, tem uma participação de extrema importância. No entanto, não acompanho muito de perto os movimentos literários pelo mundo on-line.
Muitos veículos impressos encontram dificuldades para se manter em atividade hoje. O Rascunho é voltado para leitores de literatura em um país de poucos leitores. Como sobreviver neste cenário?
O Rascunho sobrevive com muitas dificuldades. No entanto, graças ao empenho dos colaboradores, que não recebem pelo trabalho, o jornal conseguiu um padrão editorial muito consistente. Com o tempo, consolidou-se como um veículo importante no cenário literário. Isso contribuiu para a realização de outros projetos que ajudam a garantir a sobrevivência. Além disso, com o tempo conquistamos assinantes e a confiança de bons anunciantes. Mas todo mês é uma luta para fechar as contas. Para complicar um pouco mais, sempre mantive distância das leis de incentivo.
O jornal já foi palco de grandes polêmicas entre leitores, articulistas e escritores. Você lembra de alguma em especial, que rendeu boas discussões?
Desde o seu nascimento, o Rascunho sempre foi palco para amplas discussões. Muitas delas bem acaloradas. Muitas foram marcantes. No entanto, a mais importante foi a envolvendo o poeta Sebastião Uchoa Leite (edição 35, março de 2003), cujo livro A regra secreta recebeu crítica extremamente negativa. O texto gerou manifestações muito raivosas e também apoio de leitores e do meio literário. Foi uma batalha bem interessante. A partir de então, o Rascunho ganhou mais evidência em todo o país. Fizemos algo que considerei fundamental: abrimos amplo espaço para aqueles que não concordavam com o nosso texto. Na edição seguinte, publicamos textos e cartas contra o próprio Rascunho. Foi um exercício bastante saudável.
Se pudesse escolher sua edição preferida nesta década de Rascunho, qual seria e por quê?
Tentado a cair no lugar-comum, sempre escolho a edição mais recente como a minha preferida. É um sinal concreto de que estou vivo. De que algo tem dado certo. É a prova de que é possível, mesmo com todas as dificuldades, fazer algo em que se acredita. Por motivos óbvios, também tenho carinho especial pela edição zero, de 8 de abril de 2000.
O que você está lendo no momento e gostaria de indicar a outros leitores?
Leio muitos livros ao mesmo tempo. Alguns por obrigação profissional. Por prazer, estou às voltas com Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas (autor fundamental para quem aprecia a boa literatura), uma releitura de Lavoura Arcaica, do Raduan Nassar, e os versos da norte-americana Marianne Moore.
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