12
dez

Dois adolescentes. Um encontro secreto. Bum! Um ruído ensurdecedor e o prédio em construção vem abaixo. Sob os escombros, no escuro, absolutamente sozinhos e protegidos apenas por uma mesa de grápia, Rui e Júlia se recuperam do susto. E, enquanto esperam o resgate, têm tempo de sobra para se conhecerem.

Assim começa “O Estalo”, romance do escritor gaúcho Luís Dill escrito apenas com diálogos. Sem um narrador para descrever cenários ou analisar o que pensam e sentem os protagonistas, o leitor conta somente com esta longa conversa para desvendar, aos pouquinhos, quem são Rui e Júlia. Qual a relação entre eles? Como se conheceram? Afinal, o que estavam fazendo ali? A cada página, vamos descobrindo as diferenças e afinidades entre eles, sua visão de mundo, com o que sonham e o que desejam.

O texto de Luís Dill tem uma capacidade brilhante de se aproximar da linguagem e do contexto jovem, a quem se destina este livro - das referências culturais, que vão de tatuagens e piercings ao hit de Black eyed Peas, ao jeito inseguro de se expressar, típico da fase adolescente. Dill merece vencer hoje o Prêmio Açorianos de Literatura na categoria Juvenil, na qual concorre este ano. Se isso acontecer, será a terceira vez: em 2008, foi vencedor na categoria Conto com “Tocata e Fuga” e, no ano seguinte, com o juvenil “De carona, com Nitro“. O anúncio dos vencedores da maior premiação literária do Rio Grande do Sul acontece hoje às 20h no Teatro Renascença, em Porto Alegre.

“O Estalo”, publicado em 2010 pela editora Positivo, traz ainda uma série de desenhos muito originais de Rogério Coelho, que tinha como desafio ilustrar uma história inteiramente ambientada no escuro, protagonizada por personagens que não se veem. Usando apenas o preto, o branco e o azul, Rogério criou imagens enigmáticas e de extremo bom gosto, como todo o projeto gráfico do livro.

30
out

Se em 16 de junho o mundo relembra a obra mais famosa de James Joyce, no chamado Bloomsday, por que o Brasil não pode ter uma data inteiramente dedicada a um de seus maiores poetas, Carlos Drummond de Andrade? Nascido em 31 de outubro de 1902, o autor de “No meio do Caminho” comemoraria amanhã 109 anos. E um de seus maiores admiradores, o também poeta Eucanaã Ferraz, propõe que a data, batizada de Dia D, seja transformada num dia de grande comemoração nas escolas, bares, livrarias e universidades, com debates, leituras, oficinas e projeções de filmes. A ideia, apadrinhada pelo Instituto Moreira Salles, vem ganhando novos entusiastas a cada dia. Conheça o projeto neste site, onde dá para assistir a alguns videos de fãs do Drummond lendo seus poemas preferidos. Eu já deixei a minha homenagem aqui.

13
set

O jornalista, escritor e tradutor Eric Nepomuceno (que agora é meu professor na pós-graduação) está por trás de Sangue Latino, um dos melhores programas da televisão brasileira, exibido toda terça-feira às 21h no Canal Brasil. São conversas informais em preto-e-branco com personalidades latinoamericanas da música, cinema e, sobretudo, da literatura, campo em que Nepomuceno mais fez amigos - o Gabo é só um deles. No vídeo acima ele entrevista Mempo Giardinelli, um dos escritores argentinos de que mais gosto, autor das novelas Luna caliente e Décimo inferno, para citar as mais conhecidas. Eduardo Galeano e Antonio Skármeta são outros escritores que já papearam com o tradutor em outros programas. Os trechos de suas entrevistas podem ser assistidos aqui.

19
jun

A manhã dessa sexta-feira, 18 de junho, foi das mais tristes. Ao menos para os leitores e admiradores do primeiro escritor em língua portuguesa a vencer o Nobel de Literatura (até o António Lobo Antunes deve ter sentido a perda). No Twitter, que já foi criticado pelo autor de As intermitências da Morte por sua “tendência para o grunhido”, a hashtag #Saramago liderou o ranking mundial. Hoje, o caderno G Ideias publicou um especial sobre o mestre, que pode ser lido aqui.

Se conheço pouco a obra de Saramago, talvez seja porque o mergulho em suas alegorias profundamente crueis e humanas nos exija demais - e quase nunca queremos sangrar ao ler um livro, embora às vezes não haja outro jeito.

Na foto acima, clicada por Sebastião Salgado, um belo retrato do escritor português na terra em que vivia, Lanzarote, nas Ilhas Canárias.

03
jun

Este sábado o suplemento G Ideias, do jornal Gazeta do Povo, publica uma edição especial sobre cultura argentina contemporânea que preparei em parceria com o jornalista e amigo Rafael Urban. O caderno, cheio de referências interessantes de cinema, música, quadrinhos e literatura, traz uma entrevista que fiz por email com a escritora-revelação Samanta Schweblin, vencedora do prêmio Casa de las Américas de 2008 e uma das contistas mais badaladas do momento no país de Borges e Cortázar. Sobre o fato de ser rotulada como uma autora de literatura fantástica, Samanta diz que ser catalogado é um mal necessário. “Recorta o que nos faz diferentes como escritores, porque é justamente nos limites e nos entrecruzamentos entre gêneros que a literatura é mais rica, mas, no fim das contas, sempre há um pobre livreiro que tentará fazer o melhor pelo seu livro, e para isso é obrigado a guardá-lo em alguma estante, catalogá-lo em algum lugar onde depois possa encontrá-lo”. Se o seu espanhol não estiver enferrujado demais, entre no site da escritora e leia alguns de seus contos. E não perca o G Ideias deste sábado.

01
jun

Na sequência de Paulo Leminski, Jamil Snege, Manoel Carlos Karam e Valêncio Xavier, perdemos ontem mais um escritor paranaense: Wilson Bueno. Nascido em Jaguapitã em 1949, Bueno fundou e editou o lendário suplemento Nicolau, que em 1987 recebeu o prêmio de Melhor Jornal Cultural do Brasil pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. É autor de obras importantes da literatura brasileira, como “A copista de Kafka”, “Amar-te a ti nem sei se com carícias” e “Mar Paraguayo“, de 1992, que misturava espanhol, português e guarani em uma experiência de linguagem inédita nas letras nacionais. Mais uma partida, mais uma obra inigualável que fica entre nós.

Foto: Vilma Slomp

16
mai

No video acima, Charles BukowskiThe secret of my endurance, poema incluído na coletânea Dangling in the Tournefortia, de 1981, nunca publicada no Brasil. Aproveito para recomendar a leitura do caderno G Ideias do dia 08 de maio, sobre o poeta norte-americano nascido na Alemanha, que em agosto completaria 90 anos se ainda estivesse vivo.

23
mar

Você é um dos mais respeitados autores contemporâneos da Itália e também um dos mais vendidos. Ao criar uma história, você pensa no leitor?

ALESSANDRO BARICCO: Não em termos de mercado. Eu acho que é como fazer uma mesa. Eu quero fazer alguma coisa que funcione. Uma coisa sólida onde as pessoas podem apoiar seus copos e beber. Os livros, para mim, são coisas úteis, de que as pessoas precisam, como precisam de pão. Eu penso no leitor porque quero que ele se sente e use a mesa. E quero que ele ache que é uma mesa confortável, bonita. Esse é o meu trabalho.

(Trecho da entrevista de André Miranda com o escritor italiano Alessandro Baricco durante a Flip 2008. Leia a íntegra aqui).

05
mar

“Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.”

Jorge Luís Borges em “O labirinto”, Atlas, 1984. E falando em Borges, a edição especial #10 da revista Entrelivros é toda dedicada ao mestre das letras argentinas e merece ser lida.

05
jan

“Não conheço nenhum intelectual brasileiro. Conheci só o Carlos Heitor Cony, lá em Cuiabá, quando recebi um prêmio do governador, e o Cony estava lá. No meio de uma porção de gente, e ele me viu e me chamou. Ele disse: “eu quero te falar só uma coisa, eu quero que você vá para a Academia Brasileira de Letras”. Eu disse: “de jeito nenhum, não gosto de chá!” Falei mesmo para ele: “Cony, eu não tenho espírito acadêmico, não sou obediente à língua portuguesa, eu gosto muito de corromper a língua, e então tá fora esse negócio da academia.”Eu seria um mal elemento lá, um chato. Não dá certo para mim, eu não tenho muita facilidade de conversar com intelectuais, sabe?”

Manoel de Barros em entrevista para Bosco Martins, João Carlos Gomes e José Santini, publicada na revista Caros Amigos.

Em tempo: A escritora portuguesa Inês Pedrosa, vencedora do prêmio Máxima de Literatura, afirmou em entrevista à Folha de S. Paulo que não vai adotar as novas regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em seus livros. Segundo ela, o novo sistema ortográfico é “um acordo em desacordo”, além de “falso” e “pirata”. Leia mais aqui. E ainda: “Livros com antiga ortografia encalham nas livrarias”. Assista ao video.