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Outro dia ouvi alguém dizendo que certa criança, depois de ficar horas de castigo, terminou sozinha a leitura de três livros. Que beleza, ler é ótimo. Só acho perigosa essa associação entre leitura e castigo. Afinal, se todo pai acha lindo seu filho ler um livro, a chance de isso acontecer mais vezes é infinitamente maior quando a família trata o hábito da leitura com afeto e liberdade, não com punição.
Aos pais que têm o desejo de criar este clima em casa, eu indico a coleção Pequenas Grandes Histórias, que a editora Positivo lançou recentemente. Trata-se de uma caixinha com seis clássicos da literatura infanto-juvenil ilustrados, recontados pelo escritor italiano Roberto Piumini e extremamente fieis aos contos originais dos irmãos Grimm, de Hans Christian Andersen e do grego Esopo. Aliás, este é um dos pontos altos da coleção. Ao longo dos séculos, estas histórias foram reescritas inúmeras vezes, em geral em nome do “politicamente correto”, eliminando qualquer vestígio de maldade. Agora, o pequeno leitor vai conhecer as versões originais destes contos, ou pelo menos o mais perto disso. “As pessoas precisam entender que os livros de literatura não servem para catequizar as crianças, para passar lições de moral. A literatura é, antes de tudo, uma arte: a arte da palavra. Depois, não podem esquecer que o mal não é uma invenção da literatura. Está presente nos textos literários, assim como na Bíblia, nas páginas dos jornais e das revistas, na vida”, explica Marcelo Del’Anhol, editor de literatura da Positivo. E ele está certíssimo.
Indicado para crianças a partir de 3 anos ou, no caso de lerem sozinhas, de 6 anos, a coleção é composta das seguintes histórias: Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, A cigarra e a formiga, O gigante egoísta (este, um conto de Oscar Wilde), João e Maria e A princesa e a ervilha. Você vai notar que algumas delas aparecem diferentes das que conhecemos. Por exemplo, ao final de Chapeuzinho Vermelho, o caçador não atira no lobo, e sim costura pedras pesadas em sua barriga, fazendo com que ele caia no rio e se afogue. Sempre achei que este fosse o final de O lobo e os sete cabritinhos, também dos irmãos Grimm, por isso fiquei surpresa.
Pequenas Grandes Histórias traz ainda um Guia de leitura para a família, escrito em colaboração com o escritor Paulo Venturelli, que pode ser uma “mão na roda” para os pais. Além de indicar atividades para envolver as crianças após a leitura, o guia traz um belo texto de abertura. Eis alguns trechos:
“Os livros oferecem uma lição de democracia, porque neles estão representados os mais diversos modos de dizer e de pensar. Desde cedo, tendo contato com pensamentos diferentes dos seus, a criança aprende a arte da tolerância e do respeito às diversidades nos mais variados campos do viver, o que pode auxiliar, quem sabe, na construção de um mundo menos violento que o de hoje, em que a vida foi banalizada”.
“A contação de histórias pode ser um fantástico e sedutor recurso tanto para aproximar as crianças dos adultos quanto para atraí-las para o mundo da leitura.”
“Quem passa pelos grandes escritores da humanidade dispensa os livros de autoajuda. A literatura trata dos problemas da vida e do mundo e nos ajuda, sobretudo, a amadurecer. Ainda que não traga nenhuma resposta pronta, nenhuma fórmula de felicidade instantânea, a literatura que merece este rótulo, ao lidar com as questões humanas, faz com que nos coloquemos diante de nós mesmos e aprendamos a lidar com nossos problemas e também com os dos outros.”



