As férias são o momento ideal para dar conta daquela pilha de livros que cresceu vertiginosamente sobre a sua mesa de cabeceira ao longo do ano. Mas, se for para escolher apenas um deles, unzinho que seja, vá de Raul Taburin.
Lançada há poucos meses no Brasil, esta é mais uma inesquecível obra-prima do cartunista francês Jean-Jacques Sempé, conhecido pela série Pequeno Nicolau e por suas ilustrações publicadas na revista New Yorker. O livro narra – em palavras, mas sobretudo em desenhos de traços finíssimos que são a marca registrada do autor – a história de Raul Taburin, o melhor mecânico de bicicletas da cidade de Saint-Cerón.
Mas o fato de ser um grande conhecedor de manetes, pedais, selins e pneus não lhe garantiu o mesmo sucesso sobre duas rodas: Taburin nunca aprendeu a andar de bicicleta, segredo que guardou para si a vida toda. Seu problema era uma questão de equilíbrio. Ao mesmo tempo em que não era capaz de se equilibrar sem o apoio de rodinhas, sua verdadeira identidade estava em desequilíbrio com a sua reputação. E, como costumava dizer Hervé Figure, o fotógrafo da região, “não se pode fazer nada de bom sem equilíbrio”. A começar por uma boa imagem.
Hervé e Taburin se tornaram companheiros inseparáveis, até o dia em que o fotógrafo tem a grande idéia de clicar o amigo pedalando uma magrela encosta abaixo. O episódio, não menos cômico do que trágico, traz à tona segredos antigos e um grande alívio para os dois amigos – algo próximo da liberdade de pedalar sem rodinhas e sem as mãos.
Neste livro, que vai encantar tanto crianças quanto adultos, Sempé fala de solidão, fraquezas e frustrações, mas também do poder de uma grande amizade. Que nestas férias você possa aproveitar bons livros e bons amigos. Tudo em equilíbrio, como se deve ser.
*Resenha publicada originalmente na coluna Orelha do Livro da revista ler&Cia#36.

