
Alguém já disse que o romance está para o longa-metragem como o conto está para o curta. Nesse caso, o microconto estaria mais para um vídeo do minuto. Samir Mesquita, autor que vem se destacando nesse gênero literário breve por excelência, concedeu ao Orelha do Livro a entrevista que reproduzo abaixo. Para conhecer mais sobre os projetos do escritor – que lançou de maneira independente os livros “Dois Palitos” e “18h30” –, entre aqui e divirta-se. A propósito, ao invés de vender seu novo livro, Samir está trocando a obra por outra que ainda não leu. Quer contribuir com a biblioteca do rapaz e ainda adquirir um exemplar de 18h30? Entre no site dele e veja como funciona (acabo de adquirir o meu em troca do ‘Leite Derramado’, do Chico) :D
Assumindo que menos é mais, na literatura tamanho é documento?
Em literatura erótica, talvez.
De onde vem seu interesse pelo relato curto?
Descobri o gênero microconto em uma oficina literária coordenada por Marcelino Freire. Comecei a escrever e não parei mais. Como na adolescência escrevia poesia e mais tarde fui trabalhar com publicidade, a síntese já era algo familiar para mim. Dois Palitos veio dessa experiência. E agora surgiu o 18:30.
No livro “Dois Palitos” todos os microcontos têm no máximo 50 letras. Essa limitação te liberta ou te aprisiona?
Na verdade me liberta, porque deixo que o resto da história o leitor complete na sua cabeça como bem queira. Enquanto isso eu vou tomar minha cervejinha.
Os textos de seu novo projeto, o 18:30, também respeitam esse formato?
Não, neste novo livro me preocupei apenas em dizer tudo que queria com o mínimo de palavras. Mesmo assim os textos não ultrapassam 80 letras.
Você pensa em se aventurar por outros gêneros que não o microconto?
Essa já é uma aventura em que me lancei. Meus novos projetos têm todos mais de 1000 letras, mas nenhum caminha para o formato de um livro tradicional.
Livro-objeto é sempre mais legal?
Não obrigatoriamente. Livro legal é aquele com o qual você se identifica. Se ele tem uma capa bonita ou feia, um projeto gráfico diferente ou não, isso pouco importa. Meus trabalhos acabam sendo livros-objetos porque é meu jeito de pensar.
Dá pra ser profundo com objetividade e concisão?
O que você me diz deste exemplo de Ernest Hemingway: “For sale: baby shoes, never worn.” (Vende-se: sapatos de bebê, nunca usados.)?
Hoje em dia, livros como Ulisses, de Joyce, a Montanha Mágica do Thomas Mann e a trilogia de Erico Veríssimo sobreviveriam?
2666 de Roberto Bolaño, um calhamaço de quase 1000 páginas foi best-seller nos EUA ano passado. Harry Poter e Senhor dos Anéis são talvez os maiores fenômenos editorias dos últimos tempos. Acho que a sobrevivência de um livro hoje em dia não está no seu tamanho, mas no que ele tem a falar para o leitor.
Qual a história mais longa que você já leu?
Acho que esta que citei acima, o livro 2666 de Roberto Bolaño que, além de ser um calhamaço, no final acaba conversando com outros livros dele.
E a mais curta?
Este nanoconto do Marcelino Freire, sem nenhuma letra:
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Quem são os expoentes do microconto?
O microconto mais famoso do mundo é do escritor guatemalteco Augusto Monterroso: “Quando acordou o dinossauro ainda estava lá.” No Brasil, quem começou e acredito ser o grande nome é o Dalton Trevisan.
Você acredita que ferramentas como twitter, MSN e mensagens de celular estão mudando a forma das pessoas se comunicarem?
Estou respondendo essa entrevista por email, mas poderia estar usando qualquer uma dessas ferramentas aí que você citou. Será que ainda posso ter alguma dúvida?
Tornar a literatura mais direta e objetiva é um traço dos escritores da novíssima geração?
Acho que os escritores apenas emprestam suas palavras para o que está ao seu redor. Não são apenas eles que estão adotando essa linguagem: a publicidade é assim, o jornalismo é cada vez mais, o cinema, a música, só para citar alguns exemplos.
Como você imagina a literatura do futuro?
Com vendas astronômicas, escritores milionários, e sendo assunto no dia a dia das pessoas. Já que imaginar não paga, gosto de sonhar alto.
Ping-pong minimalista de até 30 letras:
Idade: 27 anos
Cidade-natal: Curitiba
Ganha a vida como: Tendo idéias.
Uma realização: publicar meus livros.
Um sonho: conversar com o Leminski lá em cima.
Texto bom é texto….que fala contigo.
Personagem literário inesquecível: A Dama do Lotação, ainda cruzo com ela.
Um autor: Roberto Bolaño
Um livro: O estranho caso do cachorro morto [de Mark Haddon]
Literatura pra quê? Para reinventar a vida.