
Há tempos acompanho a produção de Eric Nepomuceno com alegria. Gosto muito dos livros de contos A palavra nunca e Coisas do mundo. Às terças-feiras, não perco seu programa Sangue Latino, do Canal Brasil. Porém, como muitos leitores brasileiros, meu primeiro contato com o autor se deu através de suas traduções de escritores latino-americanos de língua espanhola. Eduardo Galeano, Julio Cortázar, Gabriel García Marquez, Juan Gelman. Todos eles – e muitos outros – chegaram até nós em Português pelas palavras de Nepomuceno. Ano passado, tive a felicidade de ser sua aluna no curso de Especialização em Tradução, da Universidade Gama Filho. E, amanhã, terei a honra de encontrá-lo na 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que acontece de 14 a 23 de abril em Brasília. Nepomuceno é o curador de um dos principais eventos da Bienal, a Jornada Literária da América Hispânica. A seguir, seguem alguns trechos da entrevista que fiz com ele por e-mail, dias atrás.
O senhor convidou escritores de diversas gerações, países e gêneros literários para participar da Jornada Literária. Sob quais critérios se deram estas escolhas?
Representatividade, importância da obra e da trajetória, enfim, o critério foi armar um grupo de peso. Temos representantes de seis países: Argentina, Chile, Colômbia, Cuba, México e Nicarágua. Para um primeiro evento, está bem… Temos desde um dos poetas mais expressivos e importantes do idioma castelhano, o argentino Juan Gelman, a uma jovem contista, sua conterrânea Samanta Schweblin. Temos um autor experimental, para classificá-lo de alguma maneira, o mexicano Mario Bellatin, a um contista esplendoroso, o cubano Senel Paz. Poderia falar de cada um, mas acho que esses quatro sintetizam bem o espírito do grupo: diversidade de estilos, de formas de expressão, de gerações. Poderíamos ter ainda mais nomes, mas tropeçamos com problemas de agenda. Enfim, o critério final é o mais comum e que quase nunca é reconhecido: afinidade pessoal… O vigor da palavra e a formidável carpintaria literária de Mempo Giardinelli, Hector Abad Fancione, de Sérgio Ramírez e Antonio Skármeta são um apanhado exato da alta qualidade da literatura feita em nosso continente.
Há muitos anos o senhor acompanha os movimentos da cultura latino-americana, como jornalista e tradutor. O que destacaria de mais interessante acontecendo hoje na literatura do continente?
Ah, é uma pergunta muito ampla… Além do mais, não tenho assim uma visão teórica. O mais interessante é que se preservaram as características mais profundas da literatura latino-americana: a diversidade, a qualidade. Não se trata apenas de movimentos ou de ondas, mas de movimentos e ondas que se integram a uma tradição iniciada lá atrás, e que pode ser resumida assim: quem escreve na América está, de fato, escrevendo a América. Uma literatura vigorosa, que responde a uma realidade impregnada de imaginação.
O boom literário dos anos 1960 foi marcado pelo realismo fantástico. Nos anos 90, com o surgimento da antologia “McOndo”, um grupo de escritores denunciava um continente impregnado pela cultura imperialista do Mc Donald’s e dos Macintoshes, em oposição à Macondo de García Marquez. Hoje, existe algum ideal literário entre os autores da nova geração?
Não acredito em rótulos ou selos. O ‘realismo fantástico’ ou ‘realismo mágico’ foi apenas um meio de os explicadores de tudo conseguirem tentar explicar o que não entendiam: uma literatura vital, intensa, que respondia à imaginação coletiva, à memória coletiva do continente latino-americano. O tal ‘boom literário’ foi, enfim, um outro rótulo, inventado para explicar o que acontecia de fato: um ‘boom editorial’, com autores latino-americanos rompendo barreiras, ignorando fronteiras e sendo lidos em todo o mundo. Quanto à antologia McOndo, foi um truque na contra-mão. Sobraram os nomes – um, dois, talvez três – de quem escrevia de verdade. Rótulos e ondas, contra propostas inventadas, nada disso substitui o talento. Não dou e nunca dei a menor importância para esse tipo de coisa. Desconheço ideais literários atuais, a não ser, claro, o de escrever bem. Alguns autores mais jovens, aqui e em outras partes, anseiam pelo sucesso grande e imediato. São as febres da juventude. Depois, passam. E fica quem merece ficar.
Em sua opinião, quais autores latinos inéditos no Brasil mereceriam ser traduzidos e editados urgentemente por aqui?
A lista é enorme. Penso, por exemplo, nos argentinos Juan Forn e Hector Tizón, nos contos do cubano Eduardo Heras León, nos próprios romances do nicaragüense Sérgio Ramírez, de quem só foi traduzido seu livro de memórias do sandinismo, ‘Adiós muchachos. Penso na poesia formidável do mexicano Jaime Sabines, na bela novela da argentina Laura Meradi… Enfim, embora a gente conheça muito mais da literatura do resto do continente do que eles conhecem da nossa, há muito a ser descoberto.